Pastel [#211]

Não como esse pastel nem a pau, diz o homem gordo. O moleque ri.

Reconheço o homem mesmo sem a touca. É o padeiro. Tão jogando o lixo na área entre meu prédio e o mercado, uma espécie de beco. O menino é o faz-tudo. Só consigo pescar esse trecho da conversa. Final do expediente, eu com pizza da Sadia e Coca 2 litros debaixo do braço, pronto pra ver o seriado que baixei ontem. Entro no apartamento, tomo um banho e ligo a TV, mas não consigo parar de pensar no que ouvi. Como assim, não como o pastel?

O mercado é de bairro. Sei que quando falo isso o que vem à cabeça é um lugar pequeno, escuro e empoeirado, alface comido, nego sem camisa descarregando batata, irmão do dono no açougue com cigarro atrás da orelha. Não é o caso, esse é bem cuidado. Tudo novo, limpo, funcionário uniformizado. Quando acordo no horário, mato um pastel e um pão de queijo lá antes de pegar o ônibus. E como fecha oito da noite, dá pra comprar algo na volta também.

Salvo engano é o padeiro que faz e frita os pastéis. Por que falou aquilo? Será que dá uma zoada, soca uns negócios cabulosos dentro? No dia seguinte acordo e fico de butuca na janela. Os donos chegam, varrem a frente, colocam os estandes de propaganda pra fora. O padeiro chega às 5h40. 5h59 sai pra fumar um cigarro, fica até as 6h01. Desço, sento no balcãozinho no fundo do mercado, peço um pão de queijo e vejo ele trabalhar na cozinha anexa, a porta aberta. Pica legumes e fecha os pastéis, a panela com óleo no fogo. Logo traz a primeira travessa pronta. Não me nota. Peço um pastel em voz alta pra chamar a atenção. Quando a menina me serve ele ri. Puta merda. Riu por que eu pedi o que ele preparou ou por que fez sacanagem e sou o primeiro da fila?

Falo pra embrulhar pra viagem. Em casa abro a evidência com cuidado, esmiuçando o recheio. Cebola, cebolinha, pimentão e alho. Pego um naco de carne, parece normal, mastigo, sinto uma ponta de limão. O que tem de errado? Vou pro trabalho encucado. Na volta, tocaia na janela, o padeiro e o moleque colocando o lixo pra fora. Daqui não ouço nada. No fim o homem coloca as mãos na cintura e dá uma gargalhada. Tão falando das vítimas do pastel?

Não consigo dormir, varo a noite. Espero o padeiro chegar. Desço na esquina, maço de cigarros na mão. Quando ele sai ofereço um. Falamos do clima, de ter que acordar cedo, do bairro que é tranquilo. Daí não aguento, o cigarro já perto do fim. Elogio o pastel. Ele agradece. Pergunto se não come. Ele diz Não, não como fritura, tenho colesterol alto.

  • Loreci Demeneghi

    Adorei! Tanto quanto um pastel!