Paz [#95]

Aqui, montado no cavalo, vejo os homens correndo sobre a grama molhada, gritando enrouquecidos. Sinto o sangue pulsando nas veias engrossadas pelo trabalho duro com o qual sustentaram suas famílias por toda a vida. Os inimigos vêm em carga, em visível superioridade numérica. São como dois enxames que se batem de frente, zunindo.

Quando os vejo caindo sinto um amargo no fundo da boca. Tento me manter indiferente, o vinho que engoli há pouco queimando na garganta e escondendo a sensibilidade e a covardia. Um deles, um senhor franzino, me veio ainda ontem confidenciar que os homens não morreriam arrependidos; não que nossa propaganda patriótica fosse tão efetiva, mas estavam convencidos que o sacrifício serviria para dar lugar a seus filhos no mundo.

O meu filho está em casa, acolhido de todas as injustiças que acometem o universo fora dela, onde esses mesmos soldados lutam para obter pão e água. E seu pai aqui, observando os que o admiraram e seguiram cair aos montes na grama ensanguentada. O suor que escorre por baixo da armadura me envergonha, um boneco dentro de um enfeite melhor aproveitado por qualquer um lá embaixo neste momento fatídico.

Quando todos tombam e o inimigo continua avançando, os capitães ao meu lado imploram para que os siga até o refúgio, onde podemos nos lavar das faltas desonrosas. Mas agora, com a coragem do álcool ardendo nas mãos, chicoteio as rédeas e arranco, eu e meu garanhão contra o enxame mortífero. Luto, corto, mato e caio, as lâminas chovendo no corpo, e aterrisso na grama compartilhando o mesmo destino daqueles que se afirmaram meus, em paz.