Peito quente enriquece a gente [#30]

  • 28 de junho de 2014
  • Categoria: Fantasia

Norberto sentia um calor indecifrável no peito.

A avó dizia que era o calor do coração, indicação de pessoa forte e abençoada, menino escolhido para ser grande. Ele sabia que não era nada daquilo. O coração não ficava no meio do corpo e não esquentava assim, como o próprio médico afirmara várias vezes. Mas as palavras da avó tiveram um efeito engraçado: cresceu acreditando que fora escolhido para alguma coisa. Gastou boa parte do tempo acordado teorizando o motivo, e se via espelhado em cada um dos super-heróis que lia nos gibis. Mal podia esperar o momento de revelação.

Que não veio.

No aniversário de 50 anos, concluiu que nada tinha de especial. Era um pai de família feliz, com bons amigos de copo nos finais de semana, carro e casa razoáveis. Mas isso muitos tinham. Sentado na varanda, bebericando o uísque que ganhou de presente do filho, lembrou que quando moleque dizia que com 50 anos já teria salvado o mundo 50 vezes. Tolice. Engoliu a lembrança e foi pra cama.

Acordou sentindo uma série de cutucões. Abriu os olhos e viu três duendes trabalhando sobre seu peito. Haviam esticado a pele a partir de um rasgo central, fixando-a com grampos, e erguido as costelas dos dois lados. Um deles tinha uma vara de pesca e baixou o anzol dentro do peito, erguendo uma pequena bola amarela, radiante e quente, que os outros recolheram e guardaram num pote. Norberto não conseguia se mexer e observou enquanto desentortavam os ossos e colavam a pele. No fim o pescador deu dois tapinhas em seu queixo. “Obrigado por guardar a nossa semente”, disse, numa voz esquizofrênica.

Norberto acordou num sobressalto e logo sentiu que o calor que o guiara por toda a vida desaparecera. Reparou que aos pés da cama havia ouro, moedas e mais moedas empilhadas até o teto. Mas mesmo rico, não se sentia feliz. Se sentia enganado. E frio.