Perfume [#199]

Você tá na minha frente, olhando na minha cara, dizendo que sou linda. E eu sei que tá mentindo.

Não é a boca, o olho, a expressão corporal ou a entonação. É o cheiro. A gente exala o que pensa. Cachorro faz isso. Fareja medo. Eu farejo as coisas, só que bem melhor que um cachorro. E vou te contar, que desgraça.

É com todo mundo. Sei quando a pessoa quer ficar perto ou longe de mim, quando pensa em outra coisa, quando tá excitada, triste, solitária, feliz, enjoada, carente, com fome, com sono. Tudo tem um cheiro específico. Então eu sei, por exemplo, quando um cara chega em mim na balada e tá afim é da minha amiga. Quando tentam me passar a perna, quando rolam segundas intenções, quando a sinceridade é tanta que beira o insuportável. Imagina, a vida sem surpresas. Pode parecer legal. Não é. A mentira é o princípio básico da convivência social.

Com esse ultra-olfato foi fácil achar emprego. A Chanel me contratou e paga uma bala. Sou designer de perfumes, profissão que ninguém conhece mas existe faz tempo, movimenta uma indústria gigantesca e uma cadeia de pesquisa científica. A linha Chanel Sensations foi ideia minha. Alegria, Euforia, Satisfação e por aí vai; todos extremamente bem-sucedidos. Faço valer o meu trabalho.

Há anos venho direcionando as pesquisas para o que chamo de essência secreta. Pensam que estou trabalhando em algo da estatura do perfume perfeito imaginado no romance de Patrick Suskind, mas não é nada disso, aquilo é impossível. O que busco é o anti-perfume, um verdadeiro suicídio profissional. Dane-se. É a minha cura. Quando os cientistas chegam à fórmula final e me entregam o frasco pra teste, eu o levo para casa, visto minha melhor roupa e borrifo pelo corpo todo.

Quando chego na balada, puxo o primeiro que vejo pela frente e lasco um beijo. Ele sorri. Não sinto nada, absolutamente nada. Beijo de novo. E passo pro próximo da fila. E pro próximo. E pro próximo. O último deles levo pra casa e me permito afogar no pavor comum das escolhas aleatórias. Volto pra fábrica recuperada da melhor noite da minha vida. Digo que o projeto falhou e abandonamos a pesquisa, mas guardo a fórmula e o lote produzido, suficiente para duas vidas.

Que felicidade é a incerteza.