Poesia de Boteco Mora na Porta do Banheiro

Acordou tarde e quando desceu as mesas já tavam postas, seu Batista ali, na pontinha, escondido do mundo nos óclinhos escuros, bebericando a cerveja em goles calculados, que era pra garrafa durar a tarde toda. Deu oi pra mãe limpando a chapa e pro pai atrás do caixa, seu Batista acenou, se aprumando na cadeira (ele sempre se aprumava quando ela aparecia). Pegou o balde, o pano, o rodo e os materiais debaixo da escada do depósito e começou pelo banheiro feminino. Sempre observava a marcação em caneta na porta do box, na altura dos olhos de uma pessoa que tivesse cagado ali, feita com caneta BIC, Tenho boceta rosadinha e molhadinha que só gosta de outras bocetas, me liga, e embaixo um número de celular. Tirou o saco de lixo, amaldiçoando as cagonas que conseguiam jogar os papéis emporcalhados fora do lixo, lavou a privada e o chão.

No masculino o fedor de mijo era bem mais forte porque mijavam ao redor dos mictórios e nunca davam descarga, deu as descargas, jogou água pra amolecer um catarro seco na pia e foi pro box, onde se deparou com o cagalhão despedaçado por jatos de mijo, o que já era comum; a foto pregada no lado de dentro da porta é que não era. Impressa em preto e branco (mas recente), tirada da esquina, com uns clientes comendo e bebendo nas mesas e ela, bem no meio, abaixada pra pegar uma tampinha de garrafa no chão, a bunda em destaque, a saia erguida e a calcinha socada. Alguém havia colocado essa foto ali no dia anterior, porque de manhã ela limpou e não tinha nada — e era ela quem limpava todo dia. Não dava pra saber quem era de cara, mas se a mãe ou o pai vissem, sacariam na hora; ela rasgou a foto, amassou, jogou no vaso e deu descarga, saiu pro bar, olhou a mãe e o pai, eles perguntaram se tava tudo bem, ela disse que sim e voltou pro banheiro, terminou e depois subiu, tomou um banho, colocou o uniforme e desceu pra atender as mesas. A mãe viu que ela tava de calça, fez que não com a cabeça, ela subiu e colocou a saia. Os clientes chegaram aos poucos, a maior parte gurizada da faculdade, ela super atenta, olhando as calçadas do cruzamento, e só lá pro final da tarde percebeu um rapaz fotografando a fachada do bar, atravessou a rua e o interpelou e ele disse que aquela era a primeira vez que tirava foto dali, um trabalho pro curso de arquitetura.

Quando voltou viu seu Batista rindo pra ela. Foi perguntar se ele queria alguma coisa, um petisco, ele perguntou se ela gostou da foto, ele disse que pagou um amigo pra ficar de butuca só pra tirar a foto, disse que ele teve de ficar a tarde toda esperando ela se abaixar, e que tava com a foto há semanas, e que só vinha no bar pra ver ela, que era uma linda e uma gostosa e ele não se aguentava, e queria muito se declarar pra ela, e disse que sabia que ela não ia querer nada com um velho, mas que ele precisava falar, que ela era uma guria escultural e que ele daria tudo que tinha na vida pra poder passar uma noite com ela. Ela só ouviu e disse que se ele inventasse de trazer outra foto ela ia fazer ele engolir a foto e colocar pó de vidro na cerveja e disse que se ele falasse mais alguma coisa ia chamar o pai e explicar a situação e o pai não era conhecido por ser um cara calmo. Seu Batista terminou a cerveja e foi embora.

Ela entrou no banheiro feminino, mandou mensagem pra prima (em Ouro Preto), disse que amanhã tava chegando e perguntou se aquela vaga na loja de sapatos do cunhado ainda tava de pé. Pegou a BIC, rabiscou o número da boceta rosadinha e molhadinha, tirou o segundo chip do celular, quebrou no meio, jogou fora.

  • Loreci Demeneghi

    Adorei esse teu texto! Lembro que foi um exercício. Muito bem executado, por sinal!