Português [#193]

Eu tinha uma amiga, a Ana Clara, que gostava de falar difícil. Quando abria a boca era aquela coisa. Sempre uma deixada enigmática, queria mostrar que fez Filosofia I na faculdade. O dia que a gente parou de conversar foi histórico. Ela tava on fire, acho que ligou o filósofômetro.

Na época me dava carona pro serviço. A gente trabalhava no Correio Braziliense. Paramos na padaria, pão de queijo e suco. Na hora da conta ela quis saber se eu podia pagar, já que tava de carona. Lembrei que morava na mesma rua que ela. Aí me saiu com “O oceano tá cheio de peixes e as baleias vivem com os tubarões e com os camarões”. Eu disse fica tranquila que não tá tão gorda assim e paguei.

No jornal a editora me passou a pauta da posse do Paulo Coelho e a Ana Clara ficou com uma do Inmetro. Quando voltei ela perguntou se eu conheci o presidente. Eu disse que sim. “A inconstância é a única força detentora de certezas que se movem na correnteza do possível”. Fiquei quieta.

No almoço fomos no Subway. O da promoção era o frango teriyaki. Terminou o lanche e “os galináceos são a estirpe mais incompreendida do cenário estético moderno nas manhãs invernais”. Ok, só tomei minha Coca. Na volta pra casa tocou Madonna no rádio. “Substratos de influência quase imperceptível ganham novos contornos quando a sonoridade é reproduzida em mídias ditas circunspectas”. Combinamos um cinema e até mais tarde.

Fomos andando, era ali perto. Comprei pipoca. Quando enfiei a mão pra pegar a primeira ouvi “constelações de resíduos intoxicam as estruturas ósseas e geram aviltante desconforto”. Minha paciência começou a transbordar. Assistimos a refilmagem de uma comédia dos anos 70 com o Steve Martin. Ri que me acabei e até tive soluço. A Ana Clara ficou com cara de ameixa seca a sessão inteira. Acenderam a luz. “Muito me admira a entonação catastrófica e rasa que os cineastas modulam em suas películas engessadas”.

Compramos uma cerveja na sorveteria e tomamos a título de despedida na frente do prédio dela. “Julgo a conveniência a excelência primordial na construção das relações sociais, superando de longe conceitos abstratos como as refrações de Jung e as complexidades da psicanálise moderna, não acha?”. Respondi que sim, é claro. Me despedi e fui pra casa. Depois disso parei de pegar carona e limitei nossas interações a oi e tchau. Agora só ando com gente que fala minha língua. E assisto novela sem culpa.