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Jussão queria demais os famosos bambolês de Adamantino.

Adamantino era um velho cujas dificuldades na vida foram aliviadas por esse presente bem bom que amanheceu na porta de sua casa certo dia. Ele elencava várias delas sentado na pracinha da viola de cocho nas sextas à noite, num banqueto que carregava debaixo dos braços, e ali arrujeitava uns tapetinhos que faziam a criançada da feira sentar ao derredor dele.

Começava pelas coisas boas, pra conquistar os ouvintes. E tinha uma graça muito sua, um jeito de mexer as mãos, os dedos, tinha uns olhos arreganhos e a boca misurenta, até o nariz ventava conforme o causo. Fora da escola, de onde mais fugira que frequentara, uns três cachorros valentes de revirarem a lata de lixo resolveram arrevirar ele, e haja sebo pra alcançar o muro da escola e cair, pelo menos dessa vez, dentro dela.

Ou a vez que sua sogra despencara num bueiro no centro, e só ele veloz pra alcançar os bombeiros no pé da Mato Grosso pra salvarem ela toda entrevada e torta lá embaixo. Ou quando ganhou a Corrida de Reis porque não falava no regulameio que precisava correr de tênis (depois mudaram o regulameio). Ou quando tinha que cruzar o rio pra chegar no trabalho, e só chegava no horário porque jesuscristava as águas. Ou a vez que limpara a casa correndo sem parar em círculo, e o redemunho nascido na sua cola foi arregimentando todos os pozinhos e sujeirinhos e levando eles na crista até a soleira, donde se desfizeram e foram varridos com uma só varrida.

Adamantino entretia demais da conta aquele público até que os pais, já com as sacolas cheias, aliviados que a criançada não ficava nos calcanhudos pedindo pastel e garapa, davam trelinha pro velho e cabavam ouvindo alguns causos antes de lembrarem da própria fome e da janta que não se fazia sozinha. Era nessas horas que Adamantino contava de como, capitão, educara a bandidagem a afinar o tom quando chegava batucando as solas na rua, de como orquestraváva seus homens como um sanfoneiro que puxa a música e aprenderam a respeitar aquelomem que não usava botina nem no frio, os pés de fora, as unhas amarelentas e cascudas sobre as pranchinhas pretas. Nem boina nem estrela nem nome na farda ele usava, que Adamantino era nome refletido no chinelar da figura.

Jussão queria aqueles bambolês por tudisso. Por tudo que Adamantino, que era um qualquer, conquistara por mérito dos bambolês, que eram os ricos da glória.

Numa dessas sextas, um Jussão decidido seguiu o velho até a casinha de muro baixo e esperou ele entrar e tomar sua água e sentar na cadeira de fio na varanda. Esperou ele balançar, escondido na sombra dum poste de esquina, esperou ele pitar seu cigarro, esperou ele prosear com duas donas que desciam a rua, esperou ele dormitar ali mesmo.

Pulou o muro, agachou, puxou os bambolês um pé enrugado por vez, tirou os seus, calçou no velho e então enfiou seus próprios pés nos bambolês mágicos.

Jussão não entendeu quando se viu sentado na cadeira, cansado e dolorido, o gosto de fumo na boca, os vincos dos fios da cadeira nas costas. Não entendeu quando aquele seu conhecido corpo sambou em um regozijo inacreditável na sua frente, rindo que se acabava, não entendeu quando ele agradeceu na sua voz, nem quando pulou o muro e saiu correndo, alegre de bobo pela avenida, correndo bem mais rápido que o jeito que Jussão imaginava Adamantino correndo quando era moleque e dizia voar sobre Cuiabá toda nos bambolês que agora pesados, pesados, lhe coroavam os pés.