Recorte [#65]

- Senta aí, Osvaldo, toma uma gelada comigo.
- Quero não. Começo a soar, fico tonto.
- É suar, homem. Faz mal não. Quer um suco?
- Uma Coca.
- Tá bom, deixa o garçom aparecer. Então, como é que tá o pessoal de casa?
- Todo mundo bem. O véio tá tranquilo, aposentou do governo agora. A mãe tocando a creche, Lindolfo o ponto de táxi.
- E tu, estudando ainda?
- Acabei faz tempo. Mas não trabalho na área não.
- Formou no quê?
- Contabilidade.
- E trabalha com o quê?
- Tô de sociedade com um amigo. Restaurante. Lá na ponta do Costão, sabe? Fazemos de tudo, mas o que mais sai é pizza.
- E tá dando dinheiro isso, Osvaldo?
- Muito não. Mas dá pra levar.
- Cês fazem camarão?
- Claro. Empanado, no bafo, no molho branco, na moranga.
- Que beleza. Qualquer hora dou um pulo lá. Quero experimentar. Vê uma Coca pro rapaz aqui. Isso. Só uma. Já vê outra breja pra mim. Trincando, tá filho, senão eu devolvo.
- E o senhor, seu Bonô? Que anda aprontando?
- Aprontar eu não apronto mais. Fico nessa vida boa né, já ralei muito, agora guentando esse passinho de tartaruga, torrei os joelhos carregando caixa. Vira e mexe desço aqui no Joaquim, tomo uma. No mais é isso, fico em casa, cuido da netinha às vezes.
- O seu filho anda bem?
- Anda sim. Advogado é aquela coisa, corre atrás, ganha.
- É. Brigado ae, cara. Não, quero copo não. Seu Bonô, não é querer ser ingrato, mas posso tomar a Coca na viagem? Preciso ir pro restaurante, só vim pagar conta aqui na lotérica.
- Claro filho, não deixa eu te atrasar não.
- Tá bom. Brigado pela Coca. Aparece no restaurante que arranjo um camarão pro senhor. Só não abrimos nas segundas.
- Tá. Vou tentar convencer minha neta qualquer dia. Manda um abraço pra todo mundo.
- Mando sim. Tchau, seu Bonô.
- Tchau.