Remédio [#206]

Dona Helô tem remédio pra tudo.

A aposentadoria fica na farmácia, pro resto faz financiamento a longo prazo. Labirintite, artrose, artrite, pressão alta, gota, gripe, pedra na vesícula, no rim, osteoporose, alergia, dor de cabeça, renite, asma, sinusite, intestino preso, indigestão e a lista segue. É uma hipocondríaca convicta. Se não tem a doença, já teve ou vai ter. Sabe o caderno de médicos da Unimed de cor. Flerta com o farmacêutico porque não quer perder as novidades, os genéricos se multiplicam, que maravilha. O taxista é amigo e grande conhecedor de clínicas e hospitais. As oito caixas de ferramentas, compartimentadas e abarrotadas de cartelas de comprimidos e vidros de xarope, ocupam metade da mesa, entrada e sobremesa das refeições.

Quando a neta chega pra passar o fim de semana ela fica meio louca. A menina não toma remédio nenhum. Não é possível, será que minha filha não enxerga que precisa cuidar melhor dessa criança? Estipula uma dieta básica, de prevenção. De manhã um xarope pra tosse, criança tem a garganta frágil. Depois do almoço meio Dramin, pra dormir bem e ficar descansada. À noite um AS infantil pra afinar o sangue e um efervescente de laranja, vitamina C nunca é demais.

Domingo ela sai pra brincar de pega-pega e volta chorando com o joelho ralado. Dona Helô voa nas caixas de remédios, passa água boricada, borrifa anti-séptico, molha com merthiolate e mercúrio, leva no hospital, pede raio X, pergunta se não precisa de ressonância. O médico diz que é só um arranhão, não precisa passar nada. A vó insiste, ele cede, um analgésico se doer muito, mas não é necessário. Dona Helô compra duas caixas, entrega pra filha quando ela vem pegar a neta, mostra a receita, diz que é pra dar de cinco em cinco horas, a menina está com dor, sofrendo, cuida dela.

A filha vem visitar, fala de uma instituição que prega alimentação natureba, chás e aplicação de argila no lugar dos remédios. Mas que besteira, filha, acha que médico estuda pra quê? Vai confiar nesse povinho supersticioso? Não vem me falar que tá meditando agora. Ah, mãe, a senhora é muito dependente de remédio, gasta uma fortuna, procura doença que não tem. Eu me cuido, filha, é diferente. Sou preparada pra tudo. Mas já virou obsessão, a senhora passa o tempo todo nisso, pesquisando isso, falando disso. Deixa pra se medicar quando tiver doente mesmo, quando o médico receitar. Ah menina, vai, deixa eu fazer do jeito que eu quero, já tô velha que chega pra saber no que eu vou gastar meu tempo e meu dinheiro. Tá bom, mãe, tá bom. É só que eu fico preocupada com a senhora. Daqui a pouco vai ter uma overdose.

Overdose? Pfff. Isso é coisa de drogado, filha.