Rostos [#67]

  • 30 de junho de 2014
  • Categoria: Sem categoria

A gente tem um monte de rostos. Uns três quando somos crianças, um na juventude, outro na meia-idade, dois na velhice. É só pegar as fotos, dar uma olhada, constatar: a gente não tem só um rosto.

Fico pensando nisso. Meu neto de 4 anos, por exemplo. Olho pra foto em que segurava ele no hospital, recém-nascido. Outra pessoa. Dois anos, outra. Ali pelos 12 vai ter outra, maior e mais ossuda. Já o rosto do avô que ele reconhece é esse que tenho hoje, de 64. Se eu mostrar uma foto minha guri, ele não vai entender; é outra pessoa.

Talvez seja por isso que eu odeio tanto fotografia. É um problema. Os leitores não gostam. Quando viajo pra lançar livro novo, quando pedem autógrafo, quando dou palestra. Já sabem, é lei, tem câmera eu não vou, tem flash vou embora. Tenho um problema sério. Não quero que saibam que os livros que escrevi antes dos 45 não fui eu que escrevi.

Peço pra não divulgarem imagem, só nome, mas desobedecem, dizem que assim o público não vem. Eu cedo nesse ponto, senão não ganho dinheiro. E continuo odiando panfleto e outdoor. Mas é incrível. O pessoal pega pra publicidade a última foto que fiz com gosto, quando tinha 51. Aí chega o velho de 64. Muito mais ruga, as entradas no cabelo, que agora é branco. É um choque. Pensa quando eu tiver 77. Um horror mesmo.

Engraçado. Você tem que negociar com o incerto. Eu casei com a Juninha quando ela tinha 27, eu 35. O contrato era esse. Daí passam 30 anos, eu acordo, olho pro lado e vejo que me enganaram. Não foi com esse rosto que eu casei. Quis pedir pra acabar mas olhei no espelho antes. Eu também já não era mais o mesmo. Não quis saber, sou um puto egoísta. Separei. Casei de novo. O que me consola é saber que a esposa nova, a Odete, 36, vai ter esse rosto até o dia que eu bater as botas. Pelo menos acho que vai. E não sou bobo, nunca olhei foto antiga dela, não quero ver o que já perdi.

Às vezes penso na minha mãe. Ela morreu quando eu tinha 22. E se me visse hoje? Não ia reconhecer o filho. Só se eu abrisse a boca. O tempo vai passando, a gente fica amargurado. Fico paranoico com esse negócio. Esses tempos atrás troquei de casa editorial. Tava irritado com o jeito que tratavam minha obra no internacional. Pessoal de fora quer ler, nego empomba e atravanca as traduções, joguei na mão de quem quer trabalhar. Designaram uma editora pra toda a minha produção, uma coisinha meiga de 42 anos, culta demais, sabe recitar de cor os começos dos meus livros. Fica se engraçando pro meu lado. Eu disse pra ela gravar bem meu rosto. Esse aqui. O de hoje. O de ontem não a conheceu. O de amanhã eu já nem sei. O tempo passa.