Sanduíche enferrujado [#126]

Sanduíche na mochila azeda. A Mara me diz isso. Arranca um nacão de margarina com a faca, espalha, joga mortadela e queijo e enrola no papel alumínio barulhento. Você trata de comer isso antes do meio-dia, tá ouvindo, ou azeda e na fome vai comer de qualquer jeito e passar mal. Tá bom, mãe. Mãe é o caralho. Coloco na mochila entre as ferramentas e os parafusos e vou embora.

Manoel quer se mudar no dia seguinte, o que me deixa pouco tempo pra arrumar a fiação elétrica da casa. Lembro da fome lá pro meio da tarde, a barriga reclamando enquanto puxo o fio do teto da cozinha. Encontro o sanduíche no fundo da mochila, soterrado pelas quinquilharias do serviço. Quando abro o papel alumínio sinto cheiro de ferrugem. Como, engulo com água da garrafa 2 litros, faço uma bolinha, jogo pela janela. O sol deita e eu deito também, sentindo um peso no estômago. A Mara tava certa. Azedou.

Despejo a cura na privada do lavabo. Melhoro. Amarro a lanterna na cabeça com fita isolante e trabalho noite adentro, desencapando e encapando, instalando bocal de lâmpada, ventilador e tomada. Termino bem tarde, depois da meia-noite. Manoel vai ficar contente e me pagar um adicional. Não custa sonhar. Volto pra casa controlando a fome, que apareceu de novo. A Mara dorme, mas dentro do forno acho outro sanduíche, enrolado no papel alumínio. Vou dar a primeira mordida e paro. Não tem cheiro de ferrugem. Embrulho o pão, enfio na mochila, sacudo bem.

Fumo dois cigarros seguidos na garagem. Volto pra cozinha e resgato o jantar da piscina de cacarecos. Agora sim. Sujo, despedaçado e fedido.

Como eu.

Nhac.