Se essa rua, se essa rua fosse minha

Das portas das lojas os vendedores me olhavam. Eram tantas vitrines, tantos produtos, tantas luzes miradas nos produtos que os imaginei já acostumados ao conforto das lâmpadas ao invés do conforto das mãos dos clientes. Era apenas eu ali, e a julgar pelo entusiasmo dos vendedores, eu era o único cliente ali há muito tempo.

Não sei se percebiam que o festival de atrativos, uma vez unificado, criava o mesmo padrão de que tentavam fugir. Assim, a única loja pela qual me interessei foi justamente aquela resistente ao impulso exibicionista. Entre dois pontos espalhafatosos, consistia em uma parede suja com letreiro de madeira recortada e vitrine simples, livros empilhados e equilibrados em mostradores. Não reconheci nenhum título, mas não eram os livros que me interessavam. Na porta não havia ninguém. Era quase como se o vendedor ausente desafiasse o cliente a entrar em sua loja arisca, indiferente. E, certo ele, entrei.

Senti o peso das encaradas e as fungadas em uníssono dos vendedores quando passei pela porta. Não havia ninguém ali dentro. Não era uma artimanha para me atrair. Era o resultado do simples abandono. Andei entre as estantes, observando as lombadas trocadas, títulos virados para a esquerda e para a direita. Vítima da minha própria meticulosidade, comecei a endireitá-los, virando os errados de ponta cabeça.

A arrumação me custou algumas semanas. Entre os livros, selecionei aqueles com as capas mais bonitas. Naturalmente mereciam algum destaque. Encomendei expositores mais robustos e atraentes, e também algumas lâmpadas para que os clientes pudessem vê-los. Arrumei a vitrine, instalei os soquetes em ângulos diferenciados, aproveitei a deixa de um livro de astronomia e encomendei um móbile do sistema solar para flutuar ao seu redor.

De fora, observei as melhorias. O letreiro não ajudava, tampouco a sujeira da parede. Comprei tinta para a fachada e luminosos para substituir as letras de madeira. Na reestreia encomendei alguns salgadinhos e até mesmo duas garrafas de champanhe, decorei a porta com fitas prateadas e douradas. Ninguém apareceu. Andei um pouco pra ver se encontrava algum vendedor disposto a dividir o champanhe depois do expediente, mas todos recusaram.

No auge da bebedeira, entupido de salgadinhos, pensei em ir embora. Mas a simples verdade era que não podia me dar ao luxo de deixar aquele lugar ao qual me dediquei tanto tempo sem permitir que ao menos uma pessoa visse o que eu fizera e desse alguma espécie de sentido àquilo.

Acostumado ao calor das minhas lâmpadas, evito o frio lá fora. O máximo que faço é me dependurar na soleira da porta. Às vezes, parado aqui, imagino que meus pés crescem pra frente e pra trás e despontam em garras fechadas sobre uma barra de ferro. Observo a rua vazia. A indiferença dos vendedores é que me dói no peito. Até hoje não falam comigo. Não entendem que eu não sou, nunca fui um vendedor. Sou um cliente.