Segredo

Sinto algo duro na terra. Largo a pá, ajoelho, começo a cavucar em volta com as mãos. É uma caixinha enferrujada. Abro e vejo um envelope. Dentro uma foto preto e branco, uma menina entre quinze e vinte anos segurando um recém-nascido. E uma carta escrita à mão. “Esse na foto é o nosso filho, Bento. Não te falei que plantou mais que saudade aquela semana aqui? Agora que tá segurando a prova, vê se vem visitar. O Tiago quer te conhecer. Maria”. A remetente é Maria da Conceição, de Rondonópolis, duzentos quilômetros de Cuiabá. E endereçada ao meu avô, Bento Prado. A data do carimbo é 10-09-1955.

Quando encontrei o mapa revirando o sótão, achei que o vô tinha escondido dinheiro. Por isso vim correndo pro sítio procurar. Na hora nem pensei que se fosse mesmo dinheiro não valeria mais nada. Então seu Bento pulou a cerca. Já era casado com a vó em 55, minhas tias nascidas. Lembro da história que ele contava de quando adotou meu pai numa viagem pra Rondonópolis, filho de uma família bem pobre, não tinham condições de criar. Será que a vó sabia? Meu pai pelo menos nunca soube. Sempre disse que foi adotado, sofreu quando pequeno, guarda um amargo até hoje. Puxo uma foto dele da carteira, coloco do lado da outra foto. O mesmo nariz, os mesmos olhos.

Volto pra casa do vô, tomo guaraná ralado com o caseiro. Ele diz que tá tudo bem, falta a família visitar mais. Não comento que meu pai e as tias andam pensando em vender tudo e repartir o dinheiro. Então sou mesmo neta de sangue do meu vô. Posso dizer com legitimidade que puxei o mau-humor dele, é o que minha mãe sempre diz. Pego a lista telefônica, procuro M, Maria da Conceição, Rondonópolis. Acho duas. A primeira atende mas é uma menina. Na segunda um homem. Diz que Maria era sua mãe, morreu há três anos, ainda não tiraram a linha telefônica do nome dela. Depois que desligo é que me toco, acabo de falar com meu tio.

Tiro a noite pra visitar o pai. Levo o envelope. A gente conversa um monte, joga canastra. Ele tá bem, cuidando da diabetes, se exercitando. Diz que vai aposentar ano que vem, quer mudar pra Natal, morar perto da Sônia, a irmã que ele mais gosta. Calor é bom mas Cuiabá é demais, e tem as praias. Minha mãe acha boa ideia, fala de camarão, lá é coisa que vende em toda esquina. O dinheiro do sítio vai ajudar a comprar uma casa, pelo menos dar de entrada. Você vai visitar, né, Gê? Mas é claro, adoro Natal, gosto de praia também. Digo que tá tudo bem na clínica, eles gostam de ouvir isso. Comento do vô Bento, o pai diz que tem saudade mas não se alonga no assunto.

Eles parecem tão felizes. Vou embora com o tesouro na bolsa.

  • Loreci Demeneghi

    Tuas histórias são tão bem contadas e esse toque de regionalismo é um tempero que dá mais sabor e nos faz gostar ainda mais delas.