Segurança [#215]

A regra do seu Bonô no orfanato era a seguinte: cada criança tinha uma especialidade.

Fiquei com a segurança. Instalei uma alavanca com palito de picolé no portão, amarrei barbante que corria pela parede, grama e janela e acabava num sino na cabeceira da cama para saber quando alguém entrava ou saía. Preguei uma série de espelhinhos em cima do muro, na calha e nos vasos das plantas, o último na sala. Qualquer um podia ver quem chegava da rua. Fiz cinco estilingues dos bons e deixei em caixas com várias pedras, guardadas em lugares estratégicos para casos emergenciais.

Estipulei os horários pros vigias da noite. Selecionei os mais preparados, meus cinco melhores amigos, pro revezamento. É claro que não durou uma semana e todos dormiram na primeira hora. Depois bolei armaduras, cascas de árvores pregadas umas às outras e vestidas como coletes. Não deu muito certo até o Seu Bonô sugerir fronhas velhas. Não protegeriam nada mas mesmo assim fizemos, deu para pintar o símbolo da nossa organização, duas espadas toscas cruzadas. “Defensores”, a gente se chamava.

As outras especialidades não estavam com nada. Tinha cozinheiro, faxineiro, reparador, cuidador da grama, auxiliar da dona Maria. Mas todos queriam mesmo era trabalhar comigo. Me nomeei comissário e selecionei dois xerifes. Fizemos distintivos que usamos com orgulho. Montamos mais estilingues, esses presos nos cintos de barbante com saquinhos de pedras. Começamos a sair pras ruas ao redor do orfanato para patrulhar quando seu Bonô dormia depois do almoço. Ele só soube quando apanhamos de uma gangue de meninos mais velhos. Tomamos uma baita bronca, ele acabou com os Defensores e decretou o fim da minha única alegria.

Quando os ânimos esfriaram voltamos a nos reunir em segredo. Criamos codinomes e códigos e continuamos protegendo o orfanato. Quando os ladrões vieram para roubar as economias do seu Bonô estávamos mais que preparados. Acabaram desacordados e amarrados, entregues à polícia sob a luz dos holofotes. Ficamos famosos. A notícia chegou aos ouvidos certos. Fui contratado por uma grande empresa de segurança privada. Comecei como estagiário e cheguei a sócio e acionista majoritário.

Abri mão de tudo na velhice para construir um orfanato. Seu Bonô já morreu mas a regra continua viva: cada criança com sua especialidade. Nunca tive filhos, agora tenho mais de 20. Esses dias um deles achou por acaso um distintivo dos Defensores. Não tomei nem dei bronca, deixei ele se empolgar.

  • Mario Bilégo

    Massa!!
    Podia escrever mais contos dessas desventuras infantis.
    Me lembra das viagens que eu tinha quando era guri. =D

  • Loreci Demeneghi

    Um causo e tanto!