Syuasuarána

Do fundo da mata o rugido. Não deu em nada. Milhó. Que pra lidar com trem assim só homem com corage e falta demais dessa aqui nesse moço.

Moço é bão de dizer que vive só cos trem que Macu deu, que hora que Macu quiser tirar é sopro na oreia e pé na cova e algum sortudo fica cos óios e o resto bicharada divide com presteza. Mas não é só bicharada encarando com língua molhada não, moço é apetitoso e as cunhatã tudinho oriçada quando passa na frente da maloca e vê espinha de peixe envergada, plantada em terra boa, e calha de quase sempre acordar pra brincar com uma ou outra até cansar as espora e abrir bocejo-fome que manda pro fruto fácil já no jeito de despencar do galho.

Carne é bom que moço nem liga de esfiapar num dente e incomodar até quando Vei, a Sol, tá descansando, mas caçar nada de fazer não, quer é filar dos bonito que gostam de aventura, que gostam de mostrar que é capais, ele não é nem preocupa de não ser desde que sobre lasca pra saciar orgulho que finge ferido e lava no riacho quando ninguém tá olhando com os dente bobo de fora, sabe que ninguém pode com esperteza tamanha.

Moço ouve o rugido de novo os bicho tudo se encoie de medo e acorda e pequeninho se procura no chão no meio da grama do mato da terra dos pedregulho e quase não se acha mas se acha e sai com o coração em festa e ouve outro rugido mais alto e mais alto e mais alto que até vê os carrapicho e formiga e carrapato enfileirando nas borda do mato pra escapulir de fininho pra proteção do longe, mal pisca a onça já tá de olho nele, que hora traiçoeira pra ser apetitoso, e a linguarada nos beiço que é de fome ou de safadeza ele não sabe, ela avança mostrando os dente e cravando as unha lixada na terra e no ar que moço fecha tudo e pensa no tanto de gostoso que falta de viver ainda pra frente e pra

Moço acorda agarrado no esposo, sentindo o suor entre as pernas. Lembra de algo borrado e com gosto de fumaça e cheiro vermelho. Cobre ele até o pescoço pra não acordar com o frio do ar-condicionado. Toma uma ducha quente, xinga o nó da gravata que dá o baile duas vezes antes de encaixar e pendurar no pescoço. Bate as pontas do paletó, enfia o maço de Lucky Strike no bolso, desce na cozinha e vira um gole do Jack pra lavar o amargo da boca.

Na estação do nível 89, aguarda o bonde que serpenteia pela intrincada teia de cabos entre os edifícios. Ignora o vento da manhã, observa duas meninas com uniforme escolar rindo do holoprojetor mostrando um índio com lança na mão e bochechas pintadas correndo pelo mato. Sente algo no fundo do estômago. Entra no bonde e senta próximo à janela, observando a metrópole que se esparrama acima e abaixo, ignora as propagandas projetadas nas paredes e o pequeno androide que serve amendoim e churros na estação 27, e segue aturdido até a hexagonal entrada do prédio. Passa pelos companheiros com olhos cravados no chão ou nas telas e abre sua sala, senta na mesa, abre a gaveta, enfia o crachá na lapela, enfia os dedos nos braços da cadeira e aperta forte.

Na jaula ao lado, o tigre sedado dorme. Ele apanha o chicote pendurado na barra. São três chicotadas bem dadas pra mostrar o sangue e saciar o mal estar no estômago. No fim outra injeção na pelagem macia e um café pra abrir os trabalhos.