Tá triste? Brigado. [#139]

A verdade é que eu me entendo. Entendo os mecanismos estranhos que trabalham atrás da boca, atrás dos olhos, puxam os lábios pra cima, assim, e enrugam embaixo das sobrancelhas, esse negócio chamado sorriso, que funciona na contramão, se alimenta do contra.

Explico: só consigo ser feliz quando alguém tá triste. Todo tempo livre que tenho saio pra andar no centro. E fico esbarrando nas pessoas, observando os pontos de ônibus, procurando aquela cara de decepção, a testa vincada, as mãos se agarrando no desespero de um mini-abraço simbólico. Pode ser só a ansiedade do atraso, a discussão com alguém, a roupa que queimou no ferro, o chinelo que arrebentou a tira. Eu fico do lado, sabe, tentando não olhar, tentando não parecer que tô ali só pra isso, e me preencho. Rio, brinco com a saliva nos dentes igual criança, quase bato palma.

Quando acordo muito triste, baqueado, apelo: fico na porta do banco. Tem em todo lugar e é tiro e queda. De cinco clientes que entram pelo menos um sai olhando o extrato na mão aturdido feito moleque que leva bronca da vó, se arrastando pela calçada carregando um saco de ossos fajutos nas costas, esperando encontrar a resposta no poste perto do semáforo, antes de atravessar a rua, o olhar perdido nos panfletos de encanadores e serralheiros. Fico ali, feito rabo, seguindo desavisado, rindo, puxando, absorvendo essa energia maravilhosa que parece fluir dos poros dos pobres coitados pros meus. Mesma coisa nos hospitais. Nas funerárias. Nos botecos (já reparou que todo bêbado acha motivo pra chorar?).

E é pelo mesmo motivo que evito loja de presente, floricultura, agência de viagem. Cada lugarzinho pro povo sair com sorriso no rosto. Fujo, quero distância de alegria e sucesso. Coisa asquerosa. Puteiro, então, nego sai de alma lavada. Um inferno. Basta ficar uns segundos perto dessa coisa transbordante que sinto as lágrimas repuxarem, as narinas arderem com a mucosa que vai chegando, a saliva crescendo e engrossando e travando a língua. Eita povo ruim. Sorriso só o meu, que basta.

Em último caso, se o negócio tá feio demais, tipo o dia que por acaso topo com um grupo de funcionários que acabou de receber um aumento (situação de merda), me jogo no chão, finjo que tive um ataque. O desespero é sentimento superior: todo mundo esquece o que tá fazendo e desespera junta, ao meu redor, querendo saber o que aconteceu com esse sujeito estirado aqui, será que tá morto, tem algum médico aí, liga pro SAMU, alguém viu ele caindo, calma, minha nossa senhora, e agora o que é isso, olha, por que ele tá rindo?