Tchau, Emílio

  • 23 de abril de 2015
  • Categoria: Policial

Lava a mão, filha da puta. Lava, lava essa mão de merda. Embaixo da unha, não tá vendo que tem ali também? Esfrega detergente, sabão. Aquela escova, a escova do piso do banheiro. Isso, lava tudo. Lava até chegar no osso se te dá algum alívio.

Agora se controla. Não, caralho. Não começa a tremer e soluçar. Olha a tua barriga descontrolada, acha que isso vai dar nalguma coisa que presta? Claro que não vai. Meu Deus, mulher, pelo amor de Deus, não deixa o negócio– Ah, maravilha. Satisfeita? Agora deixa a cabeça aí dentro do tanque. Tá vindo mais. Segura o cabelo. Se esse troço pega no cabelo não sai mais o cheiro. Terceira. Não acaba mais? Já tá vazia por dentro. Melhorou? Isso. Respira fundo. Se segura. Não, cacete. Não começa a chorar agora. Deixa chegar na rua pelo menos. Puta que pariu… Tá, vai lá, dane-se. Pelo menos lava a boca, filha da puta. Esfrega a pia, enfia tudo ralo abaixo, não deixa vestígio.

Volta pra sala. A perna treme, eu sei. Mas você é mais forte, não é? Chegou até aqui. Pra chegar até aqui, puta merda, precisa ser forte pra caralho. Não desmorona, vadia. Não! Não começa a soluçar de novo. Levanta desse inferno desse chão, mulher! Você acha que é brincadeira isso aqui? Não é assim que funciona. Não dá pra editar depois, não dá pra apagar e reescrever até ficar bom. Não tem treino. Fez, tá feito.

Isso. Não assusta com a poça. O tapete tá bebendo tudo. Fica tranquila, respira fundo. Lembra, sua desgraçada, que é pra respirar fundo? Porra, é simples. Agora apanha a pistola. Isso. Não lembra da dor no braço dos trancos dos disparos. Pega o pano da cozinha, limpa a empunhadura, o gatilho, o cano. Pega sua roupa. Meu Deus! É a calcinha primeiro, burra do caralho. Isso. Agora a saia. Agora o top. Passa por cima do Albino com a calça arriada. Fica tranquila. Ignora, ignora. Não pisa aí que vai manchar a casa toda de vermelho com essa tua sandália de biscate. Agora apanha a faca que tá despontando da barriga do Marmota feito um prego da cruz. Puxa com cuidado. Calma, não tá esguichando, tá vendo? Vadia burra. Te disseram que pra ter certeza tinha que enfiar bala na cabeça, não foi? Pra não tomar susto? Agora cê aprendeu. Não, não faz carinha de nojo, sua piranha! Era pra você tá toda feliz e rindo, cacete! Isso. Esfrega bem a empunhadura da ginsu, vadia. Esfrega. Isso. Enfia ela na mão do Albino. É claro que tá fria, ele tá morto, porra!

Agora sai. Sai desse inferno, abre a porta com o pano. Anda normal e só corre quando dobrar a esquina. Corre pra casa pra tomar banho. Não pra ficar estatelada na cama segurando o retrato do Emílio. Cê tá nisso há dez dias, desgraçada. Esquece ele. O que mais você quer? Agora ele tá em paz, não tá? Para de se lamentar, caralho. Cê conseguiu. Cê conseguiu. Merda. Canta um parabéns. Isso. Abre o chuveiro. Começa com Parabéns pra você e o resto cê lembra, não? Não consegue? Então lava, filha da puta. Quando passar a mão na cintura não lembra do Emílio te beliscando, quando lavar o cabelo não lembra dele fazendo cafuné. Não lembra, desgraça. Só toma essa porra desse banho.