Turba [#56]

Ele viu aquela turba de gente gritando e se compadeceu.

Entrou no meio, começou a gritar junto. O coro era alto e não vacilava. Às vezes era a voz de um que sobressaía, às vezes de outro. Eram palavras que conhecia, um vocabulário familiar, mas elas entravam pelos ouvidos como mel escorrendo no pão e não significavam nada; não passavam de um cântico ritualístico de profusão, de epifania, sons que emudeciam por dentro e faziam aquela energia aflorar na pele, arrepiando, alimentando uma empolgação que não sabia definir ou controlar. Se sentia uma pequena célula num grande organismo, uma mitocôndria essencial para a força vital do órgão, um pulso indefinido de força que alimentava e atraía mais pessoas na rua. A turba crescia, ganhava corpo, vida.

Numa esquina larga os que iam à frente pararam. O cântico cessou, um grito esparso ou outro podia ser ouvido baixinho, depois aumentando. Filho da puta, desgraçado, viado, corno, sai da frente, sai da rua, caralho. Então o primeiro tiro. Uma gritaria generalizada. Um novo coro, esse mais forte, mais imediato, filho da puta!, filho da puta!, filho da puta!. Todo mundo pulando. Esquentou pra caramba. Se esfregava nos vizinhos mas era natural, fazia parte do processo respiratório da euforia generalizada. Outros tiros, gritos mais fortes. De repente o pessoal da frente abriu, um clarão, silhuetas de policiais fardados e armados segurando escudos atrás da fumaça densa. Alguns tacavam pedras, a maioria fugia. Uma mulher do seu lado tentou correr, tropeçou no meio-fio, caiu. Ele ajudou ela a se levantar, a procurar refúgio.

Que tá acontecendo, que porra é essa?, ela dizia. Eu sei lá, também quero saber.

Lembrou das coberturas televisivas da guerra civil na Bósnia. Do pessoal na Palestina se atacando com pedregulho no meio da rua. Porra, não era isso. O clima ali era mais de torcida de futebol. Parecia um negócio tão bonito e benevolente quando ele entrou na onda, todo mundo sorria, convidava a entrar naquele transe gostoso, e do nada o processo foi brutalmente interrompido. Olhou pros lados. Um grupo avançava na sua direção. Foi empurrado, se soltou da mulher, chutaram sua canela. Não queria ir adiante mas não tinha pra onde fugir e antes que pudesse se defender caiu, pisoteado.

Pensou na turba. Era um monstro ambíguo mesmo. O momento de iluminação se transformara em terror total. Alguém dissera que a humanidade se portava diferente em conjunto. Era de se admirar como a soma de personalidades distintas e racionais dava lugar a um impulso primitivo e acelerado. Colocasse uma faísca no meio do barril de pólvora e o negócio explodia. Segurou as pernas com os braços doloridos, se pôs de pé. Compadecido de si mesmo, mancou pra casa.

Ainda não sabia o que acontecera.