Último conselho [#68]

Alberto chegou em casa tarde. A mulher dormia, as filhas também. Abriu o armário, pegou a garrafa de aguardente. Uma dosinha pra dormir relaxado.

Fizera hora extra no hospital. Estava acostumado a ver os médicos receberem os louros, mas os enfermeiros se estrebuchavam pra atender a demanda, cuidar dos pacientes, ministrar medicação, manter sob observação no ambulatório, conversar, acalmar. Era estressante. Horários sofríveis. Quando chegava ambulância era um desespero só. Tinha coisa feia de se ver. Também tinha o lado bom, mas só quando o hospital tinha equipe grande e infra-estrutura de primeira. Não era o caso. E não dava muito dinheiro. Juntava com o que a Jana ganhava no escritório e pagava a escola das meninas, o plano de saúde, o aluguel e a comida. Quase não sobrava.

Alberto sentou no sofá, ligou a TV. Pegou um filme pela metade, assistiu cinco minutos antes de cair no sono. Se viu na frente de seu Otávio, um velhinho internado no hospital há uns três dias. Isquemia cerebral, estabilizado mas velho demais, o corpo não ia aguentar. Ainda conseguia falar alguma coisa, mas a maior parte era desconexa, enrolada, um sussurro ou outro. Não hoje cedo. A filha dele, que fazia serão pra acompanhar o pai nos últimos momentos, tinha ido comer na cafeteria quando Alberto entrou pra checar o soro. Otávio mirava o vazio e quando o enfermeiro se aproximou ele o agarrou pelo braço e segurou forte. Continuava encarando a parede, e certa cor voltou ao rosto. “Aproveita”, disse. “Aproveita enquanto é tempo. Eu não queria tá aqui, mas o corpo não ajuda. Quero abraçar todo mundo. Você tem que amar, entende? É isso que importa. Esquece as brigas, os problemas, tudo fica pra depois. Isso não. Quando você tiver no meu lugar o arrependimento tem que ser de qualquer outra coisa menos de não ter amado que chega”.

Alberto acordou com o volume alto da propaganda. Desligou a TV. Parou no quarto das filhas. Sentou entre as camas, olhou pro papel de parede rosa. Eram o que mais importava na sua vida desde que chegaram ao mundo, sabia. Foi pro quarto, tomou uma ducha, deitou. Jana acordou, viu que era ele, largou um braço sobre o peito do amado e adormeceu novamente. Alberto entrelaçou os dedos na mão mole. Não tinha motivo para se arrepender, pensou. As coisas estavam indo no caminho certo. Falava que amava a esposa sempre, mesma coisa com as filhas. O tempo livre passava com elas. Visitava os pais quase todo final de semana, conversava no telefone, trocava mensagens. O irmão morava no interior mas vinha de quinze em quinze dias prum churrasquinho. Tinha bons amigos, embora não sobrasse muito tempo pra eles. Não achou que o conselho de seu Otávio fora gasto na pessoa certa. Essa equação do aproveitamento do amor parecia balanceada na sua vida.

Quando seu Otávio faleceu, ele se tocou: o conselho não era pra ele. O velho estava tão mal que não diferenciou nada. Procurou o telefone, descobriu que o enterro seria à tarde. Passou no cemitério, chegou no fim, puxou a filha de seu Otávio pelo braço, fez o telefone sem fio. Ela o abraçou, agradeceu e saiu limpando as lágrimas.