Velha rabugenta [#45]

- Rapaz solteiro, o moleque. Um bostinha, estudou fora, voltou, caiu na gandaia. Não tem 25, careca, aquele aeroporto de mosquito, sabe? Mulher decente não quer nada com ele, todos sabem que vai herdar o patrimônio do Souzinha e torrar em um ano ou dois.
- A Rita, filha da Maria? Uma sem-vergonha. Minha neta contou que pegaram ela no caminho da fábrica de braço dado com um tipo mal-encarado, dois metros de altura, branquelão arruaceiro. Dali pro puteiro, escreva o que estou dizendo.
- O filhinho do prefeito tem aquele problema, sabe. Nunca andou direito, começou a falar agora, depois de mocinho. Ele diz que não tem nada errado com o rapazote mas todo mundo sabe, a antiga governanta deu com a língua nos dentes; ele tava com o menino no colo, bêbado, deixou o coitado cair de cabeça. A esposa achou que foi a governanta, mandou ela embora. Um salafrário, esse prefeitinho.
- A dona Gonça da padaria, essa sim tá mancomunada com o capeta. Depois que o marido morreu na construção da igreja ela resolveu abrir as pernas pra qualquer um que faça o mínimo esforço de dizer bom dia. Agora só tem homem comprando pão lá, homem que não presta. Mulher de respeito vai na padaria do Medeiros. É mais longe, mas é o que a gente tem que fazer pra não se misturar com essa gentalha. Estou te falando, não vai mais lá. E se teu marido for, já sabe.
- O Mendonça ficou caquético. Triste, era bom médico, curou meu bisneto e minha filha quando pegaram pneumonia. Agora vive atacando as mocinhas do asilo. E vou te dizer, umas gostam. O mundo não tem salvação mesmo.
- A Jussara? Não acredito. Ah, não é de se admirar. Morando com aquele filho palerma, o marido mais parado que água de poço, a filha aquela lástima, enorme, só pensa em comer. Ela está se tratando? Não sei, sabe, acho que loucura só tem uma cura: uma boa cintada. Rabo roxo já curou muita coisa.
- Dona Eulália, me dá licença, preciso voltar pra casa.
- Já vai, Soninha? Tão cedo, temos tanta coisa pra colocar em dia ainda.
- Outro dia, dona Eulália.

Soninha saiu de lá com o estômago embrulhado. Pro inferno com visita social, pensou, tentando esquecer o amargor da mãe do marechal. Eulália ficou a sós com Juninho, o bisneto, que espiava Soninha, sensação entre os homens da cidade, pelo vão da porta da sala. Ele parou ao lado da bisavó e perguntou se ela precisava de algo.

- Preciso que esse mundo tome jeito, Juninho. Essa Soninha vem aqui, fica fazendo teatro, mas é uma falsidade só. Casou com o vereador, acha que é melhor que todo mundo, fica esnobando, achando que esse corpinho vai durar pra sempre. Me ajuda aqui, menino. Vou deitar um pouco no quarto. Força, moleque! Não tem músculo nenhum nesse braço gordo? Tá na hora de fechar a boca e ajudar teu pai na madeireira! Moleque sonso, não toma jeito! Força, diacho!