Vila Rica

Ela toca prum posto mais ajeitadinho depois de Querência pra abastecer pela terceira vez desde que saímos de Cuiabá. A única parte boa da viagem foi o começo, que ainda era madrugada e tava fresco, mas depois que o sol saiu virou essa desgraça, qualquer um que mora nessas bandas sabe que setembro é época de se refugiar na sombra.

Estico as pernas desgrudando a camisa da barriga. Sinto o braço direito arder, cozido de tanto sol na porta. Preciso de um protetor ou pano ou outra coisa. A senhora da conveniência diz que o Sundown acabou. Compro uma Fanta, abro e tomo um golão. Peço pra ela esquentar no microondas duas esfirras de frango com catupiry, sei que a Marcela vai querer.

Deixo tudo pago e entro no banheiro. É daqueles bem grandes com as pias de um lado e os boxes do outro até o fundo. Tem um lixo enorme perto da porta, lâmpadas vacilantes no teto, um vidrão todo marcado na parede e a Marcela encolhida no chão perto do último box, convulsionando de choro. Peço pra ela levantar daquela imundície, vai saber quando limparam da última vez.

Por que o Carlinho tinha que viajar pra lá, Neide?, ela diz, limpando o choro das bochechas. Por que ele não ficou em Cuiabá e continuou estudando e se formou e foi trabalhar? Por que ele tinha que se envolver com essa indiaiada, defender tribo e reserva, demarcação de terra, liberdade dos povos e o escambau? Isso não era a luta dele, Neide, ele não tinha que ir lá pro cafundó do Judas enfrentar fazendeiro podre de rico, até parece que vai fazer diferença ficar com discursinho e cartaz pra quem resolve problema na bala. Lutei tanto pra chegar em Cuiabá e colocar ele na escola e o desgraçado me some na loucura com um bando de ativista e se enfia nessa guerra que não vai acabar tão cedo nessa terra sem lei e pra quê, Neide? Pra quê?

Eventualmente voltamos pra conveniência. As esfirras tão geladas. Peço pra senhora esquentar de novo. Quando a gente já tá comendo alguém liga no celular dela. Dá pra ouvir o que fala atrás do balcão, talvez fale alto só pra gente ouvir, e uma hora ela solta Tá parado o movimento, só apareceram duas índias tapadas até agora. A Marcela volta a chorar mas não é pelo desaforo. É porque ela sabe que Carlinho tava certo. Só que a dor mexe com a cabeça da gente, e enterrar filho é a coisa mais doída do mundo.