Violência doméstica [#143]

Carlito enfiou uma agulha embaixo da unha, sentiu-a atravessar a carne e tocar o osso. Pegou um martelo, bateu na cabeça da agulha até ela entrar no ossinho, passou Super Bonder em cima. A ponta do dedo não dobrava mais.

Depois de completar os dez dedos da mão, repetiu o processo nos pés. Mas dessa vez com pequenos pregos de pendurar quadros. Eles exigiram um pouco mais de força.

Comprou dois parafusos de porta, bem grandes, e enfiou por baixo dos calcanhares, subindo até a altura do tornozelo. Contente com o resultado, comprou mais quatro. Bateu dois em cada cotovelo; um no sentido do braço, o outro do ante-braço.

Pegou no serralheiro duas varetas de ferro, cortadas em pedaços de quinze centímetros. Entraram pelo topo dos ombros. Com pedaços menores, conectou os fêmures à bacia, ângulos atravessados. Nos joelhos, foram vários pregos pequenos, e depois disso nunca parou de mancar.

Por último, bateu forte uma longa haste fina, subindo do meio do cóccix até o pescoço, imobilizando de vez a espinha, reta.

Na escola, a professora, vendo que o menino não sentava mais na cadeira, ficou preocupada. Levou-o ao médico, que pediu um raio-x. Ele pregou todas as impressões numa grande lousa branca com luz incandescente e observou aquilo admirado, boquiaberto. A professora segurou o menino pelos ombros. Meu Deus, Carlito, o que você fez?

Agora eu não desencaixo mais, professora. Papai pode me bater o quanto ele quiser.