Da travessia na noite profunda

Na primeira noite, deitamos em uma clareira. Um fica acordado, de sentinela, mas os lobos chegam sorrateiros e o homem se acaba sem escândalo com o rasgo no pescoço borbulhando sangue. Sobrevivemos, acostumados a acordar tateando a lâmina, mas a matilha leva a metade. Depois disso não dormimos mais.

Quando o sol dá as caras, enterramos os corpos e seguimos, tentando decifrar o mapa que car...

 

Das responsabilidades de um pai de família

O soro vem diluído na água, se esquivando das garrafas pet, das latinhas e dos pedregulhos, se encaracola num arame ou outro, vai fluindo, passa pelos enormes túneis de canalização, onde tremelica sob as estruturas que solfejam de acordo com os carros e ônibus que ladeiam as ruas acima, segue entre as rampas de concreto, reluzente sobre o verde arrastado das algas ranhentas, atravessa o últ...

 

Da alta periculosidade dos pactos

Dá pra saber quando ele tá chegando. Porque o gato se esconde embaixo do sofá. É o único momento em que o gato faz isso, de outro modo sempre tão valente. Mas eu entendo. Eu faria o mesmo se fosse ele.

Deixo a porta aberta. Heylel sai do elevador e abre a garrafa de uísque na mesa. Serve uma dose, bebe, senta ao meu lado no sofá. Pronto?, ele diz. Pronto, respondo, uma bola na garganta....

 

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