Folgado

  • 27 de outubro de 2014
  • Categoria: Sem categoria

Acho engraçado esse povo folgado.

Chamo o eletricista pra dar uma olhada antes de ligar na companhia de energia. A conta aumentou de dois meses pra cá. O cara analisa o padrão, os postes e identifica o problema: o vizinho fez um gato. É o Ronaldo que mora ali, diz o jardineiro. Acabo com a brincadeira. Dois dias depois, voltando de uma corrida no bairro, alguém me chama a atenção no bar da esquina. É um homem novo, magro e de nariz grande. “Cortou meu barato, hein, patrão”. Ignoro. “Tá cheio da grana e não pode dar umas migalhas pro vizinho pobre”.

Da janela da lavação, no segundo andar, consigo ver a área de serviço dele. Pego um dia de folga pra bisbilhotar. Mora sozinho. Acorda umas 10, coça na frente da TV. Sai depois do almoço pra trabalhar. A Brasília velha tem um adesivo bem grande no vidro traseiro: “Eletricista, encanador, pintor, faz-tudo. 99370-1007″. Quatro e meia tá de volta. Lava roupa no tanque e estende. Depois vai pro bar, até 11 da noite enchendo a cara e jogando sinuca. Engraçado o discurso.

Quando eu tinha meus vinte e poucos trabalhava em dois empregos e estudava à noite. Terminei a faculdade pegando o fundo de garantia de um deles pra me manter enquanto fazia o TCC. O orientador me indicou pra uma empresa grande de pneus, vistoriar o maquinário e treinar o pessoal. O diploma de engenheiro mecatrônico se pagou. Cresci lá dentro, virei chefe do departamento e agora comando outros engenheiros em outros estados. O salário aumentou bastante. Fiz financiamento pra construir casa com piscina e academia. Comprei uma caminhonete, coloquei meu filho na melhor escola, tenho computador de primeira, celular bom, TV 70 polegadas. Contrato jardineiro, piscineiro e faxineiro pra manter a ordem.

Aí chega o grande entendido da vida e do universo e usa sucesso financeiro como argumento pra me desmoralizar. Justificar a condição dele apontando dedo pra minha, me acusando do crime de ter alcançado o patamar que ele deseja. Essa mania de brasileiro de ver o sucesso com maus olhos, coisa vergonhosa, e quem tá certo são os fudidos, que tão na merda, os injustiçados. Me revolta isso. Aí vão falar que não posso me revoltar porque não tenho motivo, tô com a vida ganha. Claro, muito sensato.

Sábado à tarde vou na casa do Ronaldo. Mostro um panfleto do Senai, curso profissionalizante de eletricista. Vai aprender mais coisas e conhecer pessoas, talvez até ser indicado pra uma empresa como eu fui, muita gente sai de lá empregado. “Valeu, patrão, tenho dinheiro não”. Falo que vou pagar. Ele arregala os olhos. “Por quê?” Pra não ter mais que fazer gato. Ele ri, “não quero piedade de ninguém”. Então pra roubar energia não tem problema, agora eu ajudar é feio. Tá bom.

Na semana seguinte o jardineiro me fala que o Ronaldo tomou um cacete do outro vizinho. Fez gato na casa dele.

Toma, palhaço.

 


“Folgado” e seu complemento “Patrão” são minicontos de contrastes, visões divergentes e conflitantes.
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  • Loreci Demeneghi

    Esse é o folgado legítimo! Muito bom!

  • Luiz Antonio Perlato

    Fantástico! Adorei a sua narrativa!