Kehk, o bárbaro [#85]

Kehk ainda não se habituara aos costumes sutis da civilização, de forma que uma simples conversa era um desafio.

Ele viu na mão do homem um papiro enrolado, selado com um símbolo que conhecia bem: um escudo atravessado por uma flecha. O desenho estampava as armaduras dos nobres das cidades que cercavam seu reino selvagem e as bandeiras hasteadas no alto dos castelos. E transmitia um sentimento simples ao bárbaro: raiva. Seu povo vivia acuado e à mercê de homens que vestiam aquele símbolo. Agora que se encontrava longe de suas terras, há anos vivendo por conta própria em paragens distantes, Kehk já não era mais refém daquela situação, mas nem por isso deixara de odiar os opressores.

- Você, homem. Por que carrega esse papiro?
- Que lhe importa?

Foi a resposta errada, obviamente. Kehk agarrou com sua mão peluda o pescoço do homem, ergueu-o e o jogou contra a parede. Ele ainda tentou reagir mas um chute no rosto apagou-lhe os sentidos. Kehk ajoelhou-se e retirou o pergaminho da mão fechada. Abriu-o mas só viu letras miúdas que não entendia. As pessoas na rua o ignoravam, precavidas diante do estrangeiro parrudo com cara de poucos amigos. Ele ergueu o homem desacordado pelo cangote, carregou-o até uma ruela lateral e o sentou no chão. Acordou-o no terceiro tapa.

- Que está escrito aqui?
- Não me bata! É uma solicitação do rei Rovolod.
- Rovolod!? Aquele bastardo filho de uma puta arreganhada! O que ele quer?
- Comida. Especiarias. Vinho branco. E um barril de hidromel da Ilha de Kôpra.
- Um barril? Hah!
O bárbaro levou o servo até os fundos de sua taverna preferida. Pediu um barril usado ao taverneiro, destampou-o e urinou dentro. Disse ao homem que fizesse o mesmo. Ele recusou, mas um olhar atravessado logo o fez mudar de ideia.
- Veja que coisa boa, homem! Você veio pra cidade atrás de nada mais que comida. E agora ganhou um companheiro!
- Companheiro?
- É claro! Eu não deixaria de ver a cara de Rovolod bebendo mijo por nada! Estava na hora de voltar pra casa, só me faltava um motivo. Qual o seu nome?
- Norberto.
- Eu sou Kehk – Norberto escondeu o pavor quando os ossos de sua mão foram esmigalhados num aperto. – Acho que vamos nos dar muito bem, homem! Agora abra essa torneira! Temos que encher o barril! Hah!


*Kehk continua sua saga de vingança AQUI.