Catapulta

Enquanto analisamos os vídeos do drokkar se debatendo e arrebentando as amarras na sala de contenção, começo a chorar. Sinto as lágrimas caírem no dorso da mão. Depois disso não param. Injetam sedativos em meu corpo, minha cabeça dói, falam em tom sereno, falta pouco, falta pouco.

Peço pra ver uma criança. Mais de cinco anos sem ver uma criança, sinto falta da ingenuidade, das risadas. Lembro de Eduarda pequena, correndo atrás de mim sem conseguir me alcançar. Uma das cientistas traz sua filha de seis anos. Jogamos um correspondente bokartiano às nossas damas. Ela ri bastante, me acha curioso. A mãe diz que sou um amigo do trabalho, não um alienígena, e acompanha tudo sentada num canto da sala. Pergunto coisas do seu dia a dia, a rotina da escola, os amigos, o que gosta de comer, de assistir. Abraço ela no fim, agradeço. No dia seguinte peço pra vê-la novamente, ao menos jogar mais daquele jogo. Dizem que o jogo não existe, que a cientista em questão não tem filha e minha tristeza deságua numa dor lancinante que me faz vomitar, bater a cabeça no chão e ficar três dias de cama. Mas melhoro, sempre melhoro, e volto aos desdobramentos da missão.

Meses de tentativas físicas, mentais e espirituais e a programação neurológica dos celestiais não é nem mesmo arranhada. Esse tempo é efetivo apenas para testar a dosagem de drogas no drokkar capturado e torná-lo dócil ou sonolento. Ele se nega a reconhecer a caligrafia do outro drokkar, se nega a ajudar, utiliza o aparato vocal apenas para grunhir, nunca para iniciar um diálogo ou dar uma resposta elaborada. Esperávamos mais depois das complicações de sua captura, de quase sermos revelados, das mortes acidentais durante o traslado. É possível notar a resignação na cara de qualquer um com quem cruzo nos corredores.

Incentivados pela minha degeneração gradual, os líderes da nossa célula decidem arriscar. Trazem para nossas instalações um comandante aposentado de Rupakau-ri que já não mantém contato direto com os celestiais mas ainda possui influência sobre aqueles que mantêm, revelam a verdade acerca do conflito, mostram todas as evidências e o convencem a nos ajudar. O risco se revela válido. Novas possibilidades se abrem, nossa influência invisível agora mais abrangente.

Decidimos que serei infiltrado em uma expedição que investigará algo nas proximidades do escudo e permanecerá na área fronteiriça até o aparecimento de uma bolha. Na sequência faremos algo inédito: rastreá-la enquanto está camuflada. Isso se tornou possível depois de anos estudando os dados fornecidos pelo primeiro drokkar. Abordaremos a bolha antes de efetuado qualquer contato com atmosferas planetárias e portanto antes que a deterioração se inicie.

Com as variantes alinhadas, a fase final é deflagrada. O horizonte de mudança, pela primeira vez palpável, me dá certo alívio. A expectativa diminui meus surtos de dor. Um nano pacote de informações com todos os dados coletados até aqui viajará comigo dentro de um aparato esponjoso, similar ao tecido da bolha, para resistir à radiação. Vestirei um traje semelhante, que ninguém sabe se será efetivo. A esperança é de que eu sobreviva e consiga criar, do outro lado, uma célula como a que temos aqui. Apesar da alta taxa de improbabilidade, seguimos porque não parece haver outra alternativa e tampouco tempo.

Ao cabo dos preparativos e da confluência de desencontros remediados por pura sorte, capturamos uma das bolhas num campo estático. Ela se abre, os drokkars no interior são exterminados e os cientistas interagem com sua interface viva. São horas de tensão enquanto a reprogramam. O drokkar tem os olhos enevoados, esse rato de laboratório, pobre coitado. Recebemos a autorização e somos levados pra dentro da bolha, que se fecha e começa a retroceder.

O final é tão rápido e convoluto, ninguém se despede, há uma apreensão pastosa no ar, a nave se distancia, o drokkar ao meu lado não sabe que caminha pra morte por radiação, vejo novamente o escudo se aproximar e sinto uma ânsia enorme e há um tranco forte e

aqui, filha. sobe aqui em cima, segura no meu braço, olha lá, tá vendo? lá longe? o papai nasceu em cima daquele morro, tinha uma casa lá, vivia correndo por tudo aqui em volta, tomava banho naquele riacho, vinha descansar embaixo dessa árvore, é, na árvore onde a gente construiu a casinha pra você, isso mesmo, eu sempre quis voltar, não sei, filha, parece que depois que a gente passa tanto tempo longe a saudade é tamanha que a gente volta pro lugar que tem as melhores lembranças, e eu adorava isso, e queria que você nascesse aqui, filha, mas sem aquela paranoia da guerra e sem medo do dia que seu irmão fosse pra academia, você não sabe como eu sonhei com isso, sim, amor, claro, aqui, rúcula, espinafre, tomate, ano que vem quero plantar almeirão também, esse ano não conseguimos, vem, deita aqui, me abraça e deixa que depois eu coloco a ração do Fred, vem, deita, mãe, tá me ouvindo? sou eu, a Eduarda tá aqui também, tá me ouvindo, mãe? a Fabí tá ali fora com as crianças, a gente veio correndo assim que soube, mãe, tá me ouvindo? sou eu, tô aqui, não, eduarda, não quero nada deles, tô feliz, tô feliz só de continuar vivo, você e a Maria podem ir lá em casa domingo? vamos fazer um almoço em família, a gente tem que se ver mais, agora somos só nós e olha, Fabí, como eles cresceram, quase não acredito, você acredita, o tempo passa tão

e entre um lampejo e outro de dor vejo um líquido viscoso escorrendo dos olhos do drokkar, o teto esburacado da bolha. Já tirei o traje esponjoso e estou dentro da antiga bio armadura. Tiro o pacote de informações do invólucro, enfio por dentro da roupa, saio. Será que caí justamente em Carcará-2, é tão parecido. Outro lampejo, tropeço. Abro os olhos e eles aparecem, rifles sônicos em punho.


Esta é a sexta parte da série Os Celestiais e os Drokkars, uma aventura espacial em 7 episódios. Confira as demais:
1 – Celestiais
2 – Recruta
3 – Travessia
4 – Bokartianos
5 – Estratagema
6 – Catapulta
7 – Drokkars