Estratagema

Minha dor de cabeça não diminui. Passo longos períodos, às vezes dias, isolado num cubículo médico, recebendo sedativos na veia. A suposição dos bokartianos é de que a exposição à radiação do escudo alterou algo em minha estrutura e meu corpo acusa a mudança. Os exames não revelam nada de diferente, nenhum carcinoma, nenhuma anomalia. Me asseguram que não há motivo para preocupação. Mas posso sentir sua insegurança. Sei que, como os humanos, os bokartianos são incapazes de entender os componentes do escudo energético e também as outras tecnologias e habilidades dos celestiais.

Quando me sinto bem, auxilio-os na busca de alternativas para que possamos escapar de um destino semelhante ao dos drokkars. Há um objetivo mais ou menos delineado: desativar o escudo. Mas se não sabemos como ele funciona, por onde começar? O modo como se dá a transferência de energia dos maquinários de mineração planetária para o escudo permanece uma incógnita. O que dificulta o andamento da pesquisa é a necessidade de sigilo. Minha existência é do conhecimento de apenas alguns poucos militares e cientistas de confiança. Como os superiores desconhecem o que se desenrola dentro das instalações, é necessário não utilizar recursos ou efetuar operações que fujam do espectro aceitável da rotina. Não é possível, por exemplo, enviar uma sonda ou direcionar um satélite para a análise da nave celestial que roda o quadrante sem que isso nos revele.

Uma complexa rede de espionagem é arquitetada. Não posso ajudar os bokartianos nisso, e me resta acompanhar a lenta compilação de informações. Beirando a tênue linha da desconfiança, missões dúbias são colocadas em prática, e dados colaterais, à primeira vista inúteis, são aos poucos reunidos e trazidos até nós.

Nesses anos de espera, passo por um processo de imersão na cultura bokartiana através dos holo documentários e de longas conversas com os integrantes do grupo. Tenho acesso a quase todos, cerca de trinta homens e mulheres, que me tratam de maneira amável e curiosa. Da mesma forma que pergunto a respeito da sua história também me perguntam a respeito da nossa, e respondo na medida do possível. Depois de tanto tempo sentindo o cheiro e ouvindo os sons de suas praias, cidades e campos, de flora e fauna diferenciadas, minha maior vontade é deixar a base subterrânea e me misturar à população local, comer em seus restaurantes, assistir seus holo filmes nos cinemas, beber suas bebidas e dançar ao som de suas músicas, in loco. Mas não posso.

Eventualmente reunimos dados suficientes para desvendar a natureza da transferência energética. Passamos a apostar em algo concreto. Os cientistas desenham um aparato que pode interromper a corrente da nave, que atua como conduíte; uma espécie de pulso eletromagnético que pausaria, pelo menos por alguns momentos, o funcionamento do escudo. É necessário calcular a trajetória da nave celestial e equipar uma das naves bokartianas com esse canhão, que efetuará o disparo. Tudo em total segredo. E não só isso. Para que seja realmente efetivo, o ataque deve ser cronometrado com uma descarga semelhante do outro lado do escudo, realizada pelos humanos.

Fico feliz quando confirmam que será necessário me devolver ao meu quadrante. Mas isso será ainda mais difícil que criar e instalar o canhão. A ação do drokkar que me capturou e fez a travessia foi um episódio isolado. As bolhas continuam chegando e se deteriorando, os drokkars continuam lutando. Será necessário capturar um deles, trazê-lo para a base e quebrar sua programação neurológica. A captura e o transporte até nossas dependências, por si só, constitui um grande risco. Já foi difícil comigo, que não ofereci resistência e podia me passar por um bokartiano se chegasse a tanto. Não será o caso com um drokkar letal e nada cooperativo. Não conhecemos a fundo sua constituição e não sabemos que sedativo e dosagem são necessários para dopar um deles. E mesmo que a captura e a conversão sejam um sucesso, há o problema do transporte.

Precisamos de uma bolha. A que me trouxe aqui foi um extraordinário presente contrabandeado de um lugar desconhecido. Como conseguiremos uma em perfeito estado para a nova travessia? Como conseguiremos fazê-la sem despertar a atenção dos celestiais? Como, nos perguntamos sempre, os celestiais não notaram a primeira?

As dúvidas são muitas e a incerteza é latente. Meu aprisionamento forçado desperta algum transtorno psicológico com ligeiras alucinações, o que preocupa os médicos. Os surtos de dor se tornam mais frequentes. Busco forças na saudade que sinto da família e dos amigos e na expectativa do retorno. Preciso voltar. Preciso salvá-los. Preciso salvar a Terra.


Esta é a quinta parte da série Os Celestiais e os Drokkars, uma aventura espacial em 7 episódios. Confira as demais:
1 – Celestiais
2 – Recruta
3 – Travessia
4 – Bokartianos
5 – Estratagema
6 – Catapulta
7 – Drokkars