Matemática da perda [#225]

Soraia perdia tudo toda hora.

Bola na escola. Pulseira na sorveteria. Carteira no cinema. Xuxinha no táxi. Cartão na banca de revista. Calça na lavanderia. Isqueiro na casa do ficante. Caderno na sala da faculdade. Chave na lanchonete. Celular na mesa do bar.

O pai num acidente de carro. A mãe com câncer no fígado. O tio-avô afogado no rio. O grande amor da sua vida num final de seman...

 

Pôr do sol [#224]

Débora via o céu dançar naquela paleta de cores quentes até a escuridão engolir tudo. Todo dia. Onde estivesse. Se fosse um lugar fechado dava jeito de sair pra gastar os ritualísticos minutos em contemplação. Era o único caso conhecido de transtorno obsessivo-compulsivo com o pôr do sol. Ninguém entendia o motivo.

Sempre deixava pra aproveitar as melhores coisas nesse horário: come...

 

Liderança [#223]

Quando Guaraná morreu seu império morreu também.

Começou pequeno como todo mundo. Na infância foi observador, de poucos amigos, em leitura constante do mundo. Analista de diálogos, da fala, da entonação, das fórmulas interativas. Absorvia os professores, não escrevia nada.

Sua ideia era produzir, agregar, construir. O papel de porta-voz foi estabelecido aos poucos. Gostavam de ouvi...

 

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