Johnny e a cidade no vale (2) [#177]

  • 1 de julho de 2014
  • Categoria: Faroeste

Johnny sentia as nádegas suadas coladas na sela. O cavalo bufava, sedento, gingando nas quatro patas como uma marionete movida por mãos invisíveis. À tarde alcançaram uma nascente correndo de uma pequena embocadura de pedra e desaparecendo na areia. Cavalo e cavaleiro abaixaram e beberam a água quente e arenosa.

Encheu o cantil, lavou o rosto e seguiu viagem. No fim do dia, quando o sol desceu e inundou o mar vermelho acima de sua cabeça, notou à distância quatro pequenas manchas como formigas tremeluzentes. Antes que o sol sumisse os quatro homens passaram por ele. Eram brancos e sujos e encardidos, escondidos embaixo de chapéus de abas tortas, um mascando fumo, outro apoiado na ponta da sela, todos armados. Johnny tinha a mão pousada na coronha do revólver e encarou cada um nos olhos e viram que não carregava o suficiente para trocar por uma ou mais mortes e seguiram em frente.

Acampou sob a proteção de um grande álamo no início das encostas montanhosas, e sentiu o vento gelado varrer as rochas e a areia e as ossadas descarnadas de animais selvagens e acariciar a crina espevitada do cavalo e sua própria pele grossa de sujeira. Tomou água e não fez fogo. Se enrolou no cobertor e dormiu.

Só no fim do dia seguinte chegou à cidade, encaixada no fundo do vale como um pedaço gordo de carne no fundo da panela, as luzes na neblina vaga-lumes interrompendo a escuridão que ganhava corpo e dominava tudo. Entrou segurando a rédea do cavalo com a mão boa, amarrou-o num poste, entrou no bar, tomou duas doses de uísque observando as pessoas nas mesas. Poucos clientes naquela noite fria, mas o homem que procurava estava ali, olhos semi-abertos no canto de uma mesa de pôquer, tão bêbado que deixara o revólver cair no chão e não notara. Johnny pediu o guisado de coelho com milho torrado e mais umas doses e esperou o homem despertar da sua embriaguez e se atirar porta afora e o seguiu e o derrubou e engatilhou a pistola na sua cabeça.

O Conneby, disse. Onde ele tá? O homem balbuciou algo. Onde ele tá? Preso, o homem conseguiu dizer. Matou três soldados. Vai ser enforcado pela manhã. Não vai não, disse Johnny, e atirou, e saiu de cima do corpo e desamarrou o cavalo e montou e foi na direção da cadeia.


*Este foi o segundo capítulo da Trilogia Faroeste. Confira os outros:
[1] Johnny e a espingarda serrada
[3] Johnny e o traidor