Johnny e a espingarda serrada (1) [#176]

  • 1 de julho de 2014
  • Categoria: Faroeste

Johnny entrou na oficina do ferrador, o conteúdo do saco tilintando. Ergueu-o e deixou cair na bancada a espingarda de cano duplo serrada pela metade, e também as duas pontas serradas dos canos.

Dia, disse por sobre a barba grossa embolotada embaixo da boca feito um ninho. Dia, disse o ferrador. Parece que o trabalho aí já tá feito. Precisa que eu lixe as pontas? Não, preciso que junte tudo de novo. O homem franziu o cenho. Preciso que junte tudo de novo, cole os canos, dê um jeito.

O senhor não entende muito do processo de manufatura das armas, creio, o ferrador disse. Johnny fez um muxoxo, tirou do bolso uma moeda de cinco dólares. Não, não entendo mesmo. Entendo de dinheiro. Entendo que o senhor trabalha se eu pagar. Entendo que não precisa explicar o que alguém entende ou deixa de entender, que abrir a boca não faz parte da porcaria do serviço.

O ferrador engoliu saliva. Ia dizer que só trabalhava com ferraduras mas preferiu ficar quieto. Levantou, analisou a espingarda. Era um modelo velho e empoeirado, o cão enferrujado segurando um pedaço de pederneira quebrado nas pontas, a caçoleta tão raspada que refletia a luz do sol do deserto mesmo à noite, a madeira da coronha cheia de talhos. Estava tão carcomida que não serviria para trocar por uma boa garrafa de rum. O conserto seria um desperdício.

Nunca vi alguém fazer isso, o ferrador disse. Talvez se desmontasse a arma e derretesse os canos e fundisse novamente ela funcionaria, mas não tenho o molde e as ferramentas. Mais fácil comprar outra. Johnny se debruçou no balcão. Preciso que a conserte do jeito que puder. Por que precisa dos canos inteiros se ela funciona do jeito que está?, quis saber o ferrador. Não é do seu interesse, Johnny disse e cuspiu no chão. Faça a gambiarra que for. Eu só preciso de dois tiros, um de cada cano. À queima-roupa. Bem, posso tentar fundir as pontas e lixar o interior. Ficará feia de doer, mas deve funcionar.

Ótimo, é o que eu preciso. O ferrador pegou a moeda e os pedaços da arma e foi para os fundos da oficina. Enquanto ouvia o homem trabalhar, Johnny olhou o interior da sacola em que trouxe a espingarda. O terço continuava agarrado à costura. O padre mal tivera tempo de benzer os canos serrados antes de partir desse mundo. Agora Johnny recuperara também o resto da arma. Faltava pouco. Muito pouco para acertar as contas e se ver livre da promessa divina que o resgatou da morte, os dedos solenes do Criador alcançando a areia do deserto.


*Este foi o primeiro capítulo da Trilogia Faroeste. Confira os outros:
[2] Johnny e a cidade no vale
[3] Johnny e o traidor