O mistério ganha corpo (2) [#155]

  • 30 de junho de 2014
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 ___algum lugar da Europa, maio de 1911___

Harkinen averigou a cena do crime e levou o dicionário para casa. Depois de um longo banho para se desinfetar da sujeira das ruas revisou as informações coletadas.

O rapaz não foi assassinado no local e sim desovado, sem mancha alguma de sangue à vista; um grande hematoma no peito e os dedos da mão direita esfolados indicavam briga; era um estivador de 21 anos com residência fixa na área portuária e relatos colhidos atestaram que raramente deixava a região; marcas no pescoço e roxidão na face indicavam morte por sufocamento; o corte no abdome foi realizado post mortem com instrumento delicado, linha de costura hospitalar e precisão cirúrgica digna de um renascentista, o que denotava um hobby ou a profissão do assassino; o dicionário era de latim, envolto em papel encerado para permanecer intacto no interior do cadáver.

Algumas peculiaridades interessaram a Harkinen, outras nem tanto, mas nada superou a febril atenção dispensada ao livro em si, ápice daquela obra de arte; era evidente que o criminoso se considerava um artista. O Dictionarium Latinum foi publicado em 1835 na Baviera, da autoria de Friedrich Baumhauer e colaboradores. Tinha 838 páginas, todas elas amareladas e gastas. O detetive apurou dois detalhes importantes estudando o exemplar: o primeiro que possuía forte cheiro de antisséptico, como se armazenado num hospital ou clínica ou então manuseado por alguém com acesso a produtos hospitalares. O segundo era uma folha faltando, rasgada, contendo as páginas 640 e 641. O último verbete da 639 era Cruo (sangue) e o primeiro da 642 era Crux (cruz).

Lascou um lápis e esmigalhou o grafite. Espalhou a borra com algodão. No canto direito da 642 achou a marca: algo fora circulado na folha arrancada. Foi à Biblioteca Municipal mas não encontrou a mesma edição para comparar, tampouco uma tão antiga ou completa. O bibliotecário chefe afirmou se tratar de obra de colecionador, sem dúvida. O quadro do assassino ganhava cada vez mais contornos. Era um homem literato, de recursos, contatos, bom gosto.

Mas fora as notadas particularidades deste indivíduo misterioso, Harkinen pouco descobriu nas semanas seguintes, mesmo averiguando quais palavras latinas poderiam ser encontradas entre Cruo e Crux. Outras obrigações tomaram seu tempo e, sem novas pistas, o caso foi arquivado. Até um segundo corpo aparecer. E um segundo dicionário.


*Este foi o segundo capítulo da Pentalogia Mistério. Confira os outros:
[1] O mistério se inicia
[3] O mistério se confunde
[4] O mistério é calculado
[5] O mistério é desvendado