O mistério se inicia (1) [#154]

  • 30 de junho de 2014
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Dizem que não há uma única palavra no dicionário cuja gama total de significados seja verdadeiramente destrinchada. É uma impossibilidade física e temporal; não haveria espaço para abranger essa quantidade quase infinita de páginas (ignoremos computadores e outros adventos tecnológicos inventados décadas após a conclusão desta história) e tampouco dias, meses e anos para levar a tarefa a cabo.

Idealizar algo praticável partindo desta proposição exigiria uma linhagem de 333 pessoas (números cabalísticos facilitam o favor dos deuses, caso existam) especializadas na compilação de sinônimos, antônimos, ambiguidades, extrapolações, anacronismos, neologismos, siglas, metáforas, referências e trívias populares. Calcula-se no mínimo 9 gerações desta linhagem para produzir um dicionário razoável, que estrearia já desatualizado em relação aos trabalhos da primeira geração, defasagem perpetuamente remediada pelas seguintes, reféns da sensação crônica de atraso e falta de propósito.

A falta de propósito se revelaria em outra limitação, esta relacionada aos consumidores, que não teriam disponibilidade ou paciência para descobrir a real definição de uma palavra, já que sua decifragem implicaria profunda dedicação, em torno do tempo necessário para concluir o romance (tomemos este exemplo) onde a dúvida acerca da palavra misteriosa surgiu e onde outras 214 também suscitam dúvidas (novo exemplo). Consideremos então que a leitura satisfatória do romance demandaria a leitura adicional de 215 livros a fim de apreender os múltiplos teores das passagens.

O esforço é improvável para o leitor costumeiro. Mas o mundo, como se sabe, não é feito apenas do costumeiro. A publicação do dicionário corresponderia aos anseios de indivíduos acometidos por uma aguçadíssima curiosidade verbal: acadêmicos das letras com transtorno obsessivo-compulsivo; leitores e escritores metódicos cujos inimigos declarados da refeição cíclica de significados são as necessidades biológicas, como comer e dormir; alunos tão engajados no aprendizado perfeito que se recolheriam em torres monásticas aguardando o momento inalcançável da graduação do seu entendimento. Uma classe ultra-especializada surgiria dessa iniciativa de categorização em toda a sua abrangente complexidade.

Naturalmente, a história que quero narrar aqui nada ou pouco coincide com as ramificações deste empenho monstruoso da linguagem; não passa de um relato policial, no qual um detetive se presta a solucionar um caso. E a trama é deflagrada, para desgosto óbvio do leitor, que prefere não ser exposto a tais infortúnios, acredito, com nosso intrépido Harkinen diante do corpo de um jovem em uma rua estreita, ao amanhecer, sem as vísceras. Dentro da barriga costurada encontrou, no lugar de um sistema digestivo, um dicionário.


*Este foi o primeiro capítulo da Pentalogia Mistério. Confira os outros:
[2] O mistério ganha corpo
[3] O mistério se confunde
[4] O mistério é calculado
[5] O mistério é desvendado