Da travessia na noite profunda

Na primeira noite, deitamos em uma clareira. Um fica acordado, de sentinela, mas os lobos chegam sorrateiros e o homem se acaba sem escândalo com o rasgo no pescoço borbulhando sangue. Sobrevivemos, acostumados a acordar tateando a lâmina, mas a matilha leva a metade. Depois disso não dormimos mais.

Quando o sol dá as caras, enterramos os corpos e seguimos, tentando decifrar o mapa que car...

 

Do dia em que a menina bonita morreu

O velho bufa enquanto carrega o saco nos ombros. Ele bufa tanto que tem que parar algumas vezes no caminho pra só respirar, o peito balançando um monte. Ele escolhe um lugar debaixo da árvore, uma árvore de copa gorda que não sei qual é, nunca sei os nomes das árvores.

Ele volta pro prédio e pega a pá que tá encostada na parede, é ali que a gente sempre deixa a pá porque sabemos que...

 

Das responsabilidades de um pai de família

O soro vem diluído na água, se esquivando das garrafas pet, das latinhas e dos pedregulhos, se encaracola num arame ou outro, vai fluindo, passa pelos enormes túneis de canalização, onde tremelica sob as estruturas que solfejam de acordo com os carros e ônibus que ladeiam as ruas acima, segue entre as rampas de concreto, reluzente sobre o verde arrastado das algas ranhentas, atravessa o últ...

 

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