Baldo e a sola furada

Baldo se abaixou, deitando a palma da mão na terra.

É, tá quente, seu Ferreira. Não te falei? É essa terra amaldiçoada. Sabe, o senhor pode não tá tão longe da verdade. Cadê o seu filho?

O homem foi buscar o filho na casa. O garoto veio, apoiado em duas muletas, um dos pés enfaixado. Baldo observou a palidez do moleque, usando um macacão sem camisa por baixo, todo suado. Me conta o que aconteceu, rapaz. O pai saiu logo atrás. Conta pra ele, filho. Ele entende dessas coisas. O garoto apontou o chão sob os pés do detetive.

Eu tava brincando com meus primos aí, senhor. Os menores com os caminhões de madeira e os maiores de pega-pega. Eu tava com o tênis novo que ganhei no natal, e aí correndo de repente eu senti uma dor muito forte no pé e caí. Quando fui olhar, a sola tava com um buraco e meu pé também, minando sangue. Parecia que eu tinha pisado num prego. Comecei a gritar e a mãe veio lá de dentro pra acudir. Começaram a procurar o prego pela grama, a criançada toda enxotada pra dentro de casa, com medo de que pisassem também, mas a gente caçou e caçou e não encontrou nem prego, nem farpa de madeira nem nada parecido. No pronto-socorro, o médico disse que não tinha nada no buraco e costurou.

A mãe saiu da casa, secando as mãos num pano de louça. E isso tem três semanas, e o guri só piora. Teve febre e tudo.

Baldo acendeu um cigarro, cravando os dentes na bunda do filtro antes da primeira tragada. Teve febre todos os dias? A mãe franziu o cenho. Todas as noites, na verdade. Ah, sim. O detetive olhou em volta, analisando o chão. Lembra onde foi exatamente que aconteceu, rapaz? Não, senhor. Eu tava correndo, não lembro direito. Não tem problema. Vocês ainda têm o tênis que ele usou no dia? O furado? Tá no quarto dele, não levamos no sapateiro. Já pego pro senhor.

Baldo sentou na ponta da varanda. Apontou com o rosto a cadeira mais próxima, olhando pro rapazote. O guri se deixou cair ali, apoiando as muletas no colo. O pai só observava, tentando evitar que o rosto se crispasse numa careta, sem sucesso. A mãe logo reapareceu com o tênis.

Baldo o pegou e virou. O solado tinha um buraco da grossura de uma caneta na altura do calcanhar. Puxou do bolso um saquinho, desamarrou e salpicou um pouco de pó. Nada. Resmungou. Então ergueu o tênis e o entregou ao garoto. Cospe aí, filho. Em cima do pó. Cuspir, o senhor disse? Isso, não precisa ter vergonha não. O guri cuspiu. E logo uma fumacinha cinzenta se ergueu de onde a saliva encostou. O garoto abriu a boca.

Baldo encarou os pais. Ele não tem falado nada estranho nesses dias, quando tem febre? Não senhor, responderam o pai e a mãe juntos. Então ainda é tempo. Baldo pegou o saquinho, entregou pra mãe. A senhora tem açúcar em casa? Claro. Então bata um pouco de açúcar com água, qualquer semente de fruta e tudo que tiver dentro desse saquinho aqui. E traga pro garoto beber. O que tem aí dentro? Sálvia, sal, alecrim e algumas outras ervas. Tá bom. Semente de maçã, pode ser? Pode, sim.

Enquanto a mãe preparava a bebida na cozinha, Baldo se aproximou do rapaz. Abriu seus olhos, checou as orelhas, tateou o cabelo suado, e por fim pediu pra ele abrir a boca o máximo que pudesse. Investigou. Ah, sim. O pai se aproximou pra ver o que o detetive via. O senhor descobriu algo? Sim, já vai ver.

A mãe veio com a batida esverdeada. Baldo pegou o copo e entregou ao moleque. Quero que você beba isso de uma vez só, entendeu? Não pode parar no meio. É só tomar. O garoto pegou, cheirou e olhou a bebida antes de virá-la em três grandes goles. Então apagou, o copo rolando dos dedos. Os pais se agitaram. Se acalmem, é assim mesmo. Deitou o garoto no chão, puxou seu queixo, enfiou os dedos em pinça no céu da boca e puxou. Nada. Tentou de novo, com mais força. A mão saiu com um pedaço amarelado de osso na ponta.

Minha nossa senhora, o que é isso? A mãe apertava as mãos contra o peito. O pai chegou a centímetros do negócio. Um dente? Exatamente, seu Ferreira. Como que um dente velho desses foi parar na boca do meu filho? Ele subiu pelo pé, seu Ferreira. Sei que não parece fazer sentido. Mas não tem problema, tá resolvido. O seu garoto tá bem, ele vai ficar bom. A boca vai sangrar ainda, mas logo para. Me chamaram a tempo. Vou voltar daqui a dois dias pra ver como ele anda. E pra salgar a terra. Vou trancar o pedaço de onde veio esse dente pra evitar outros acidentes. Isso que aconteceu aqui só acontece uma vez, quando acontece. Tudo bem? Não se preocupem. Quando eu voltar, acertamos o serviço.

Baldo deixou a casa segurando o osso. Fazia tempo que não via disso. O dente quase floresceu inteiro na boca do garoto, e aí não poderia fazer nada, porque já não seria mais o garoto. Num golpe de sorte, agora carregava pra casa um dos ingredientes mais caros e raros em sua profissão: um dente enfeitiçado de bruxa.


*Fustibaldo [Baldo para os íntimos] é um personagem recorrente por essas bandas. Confira as outras aventuras do nosso detetive sobrenatural:
-Baldo e a ponte
-Baldo e o asilo
-Baldo e a comida podre
-Baldo e o morto
-Baldo e a garoa
-Baldo e o chapéu
-Baldo e o alçapão
-Baldo e os choros da noite
-Baldo e a luz do elevador
-Baldo e o Halls preto
-Moleque bom