Se você me desse de colher eu comia até bosta

Sua cadela arrombada
Sua vagabunda estúpida
Sua filha duma puta cancruda
Meu amor,

Não acho jeito de começar, sempre tive problema com começo, mas depois que a primeira frase vai o resto segue igual formiga. Igual o fogo, que lambe como se pregasse selo pra mandar coisa pesada pra China. Tentei abrir a porta com pé, mão, cadeira. Mas não tá só trancada, tá barrada, e pro meu azar n...

 

Apartamento 221, ainda o mesmo

No fundo do armário, atrás do macarrão, do saco de farinha que mandaram de presente no último natal, dos potes de compota vazios, o grampo de roupa ainda engatilhado feito dente esfomeado.

Achei, querido, tá aqui, eu sabia que tinha guardado.

Quanta consideração, Tânia. Oito anos. Oito anos sem dar notícia. Achei que você nem fosse abrir a porta.

Imagina, querido.

Abre o saco...

 

A besta no coração dos homem

A farinha é pelotuda, grossa, mata a fome cuma mãozada só.

É o que sobrou depois que os rebelde vieram e abriram fogo na gente toda, que era feliz demais aqui na miséria e na sobra de sol. Agora a gente se encolhe nesse galpão, que é um galpão que por fora parece abandonado, e que era o fundo da venda do velho Mukeke. Ele dava uns pedaço de biscoito quando tava amolecendo, eu misturava...

 

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