Da velhice que se escolhe

Batem na porta. Duas, cinco vezes. Esmurram a madeira, os encaixes de ferro ganem e me arrancam da cama, com ou sem sono, o pau balangando, a visão borrada. Abro. Os dois garotos atrás de Roger riem, ele entra e fecha a porta.

Tampe as suas vergonhas, Bulvar, precisamos de você.

O que foi agora, seu filho de uma puta? Algum dos gatos de lorde Duns tá com a unha encravada? Alguma puta eng...

 

Da travessia na noite profunda

Na primeira noite, deitamos em uma clareira. Um fica acordado, de sentinela, mas os lobos chegam sorrateiros e o homem se acaba sem escândalo com o rasgo no pescoço borbulhando sangue. Sobrevivemos, acostumados a acordar tateando a lâmina, mas a matilha leva a metade. Depois disso não dormimos mais.

Quando o sol dá as caras, enterramos os corpos e seguimos, tentando decifrar o mapa que car...

 

Das responsabilidades de um pai de família

O soro vem diluído na água, se esquivando das garrafas pet, das latinhas e dos pedregulhos, se encaracola num arame ou outro, vai fluindo, passa pelos enormes túneis de canalização, onde tremelica sob as estruturas que solfejam de acordo com os carros e ônibus que ladeiam as ruas acima, segue entre as rampas de concreto, reluzente sobre o verde arrastado das algas ranhentas, atravessa o últ...

 

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