Publifagia [#188]

Nunca esqueci a primeira vez que Maria passou por mim.

Senti a atração quando ela dobrou a esquina. Os cabelos esticaram e apontaram, mamilos endurecidos, unhas em posição de sentido. Fui obrigado a colocar um pé diante do outro e cruzar a rua e segui-la levitando sobre a calçada. Agarrei um poste pra perseguição não alcançar o nível de estranheza que faz as pessoas sacarem o celular...

 

Baldo e a garoa [#187]

Essa garoa fina, o homem falou. Caindo há dois meses, sem folga.

Baldo balançou a cabeça, ergueu a mão em concha, deixou os pingos raquíticos enlagoarem a palma. Sorveu um gole, concentrou no gosto ácido, de onde vinha, para onde ia, o inusitado. Nada. Água. Chuva. Não mais que isso. O pessoal já não guenta mais esse aguaceiro, doutor, a plantação tá afogada, o gado derrapa, as r...

 

Amor plástico [#185]

Eu quase sorri quando ele disse que me amava.

Era óbvio que amava. O jeito que me olhava, que se preocupava, que se compadecia pra satisfazer minhas mínimas vontades. Como ria quando chegava, como coçava a orelha quando partia, ansioso, incompleto. Como escrevia mensagens açucaradas no Whats, como compartilhava músicas no Face com algo de nosso nas letras, como ligava e deixava a secretár...

 

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