Carta póstuma [#137]

“Amanhã, 8h30 da noite na estação central. Mamãe.”

Leio e releio. Envelope novo, fechado com cola do carteiro, selos em ordem. Como ela sempre fazia. A data no carimbo é de três dias atrás. A letra é a mesma, corrida e preguiçosa nos traços dos Ts, nos acentos. Feita com a marca da caneta tinteiro guardada na segunda gaveta da mesa do meu pai. A dobrada minuciosa do papel, esfrega...

 

Homúnculo [#131]

Cardoso era feito de terra. Argila. Barro molhado e moldado feito vaso por mãos que sabiam qual linha traçar ao redor dos lábios, sob os olhos, no meio da testa. E era das linhas que se aproveitava para não abrir a boca, para transmitir com um olhar de soslaio a reprovação que derrubava qualquer sucesso, a felicidade vislumbrada nos dentes do sorriso luminoso, a preocupação de sobrancelhas...

 

Invisinha [#129]

Tudo começou com uma porcaria de aposta.

O Zé me deu uma bala, parecia bolinha de gude. Lambi, gosto de amora. Falou que se eu comesse me dava 200 contos. Mastiguei, azedinha, engoli. E ele nunca me pagou. Sumiu.

No outro dia acordei e tomei um susto. Nada pra baixo da camisola. Nem pé nem perna. Mas o volume das coxas continuava ali. Tateei e senti a pele, os ossos, as unhas, tudo em ord...

 

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