Jourrúbio e a farofa de banana [#20]

Jourrúbio da Silva era um cuiabano tranquilo.

Sua mãe costumava dizer que era mais fácil gato criar chifre que Jourrúbio ficar bravo. Os amigos brincavam, listando as reações que o separavam do resto da humanidade:

.Sempre que jogava truco perdia e dava risada.
.Tomou fora de todas as mulheres que conheceu na vida menos da mais feia, com quem se casou, e se dizia um homem de sorte.
.Quando batiam no seu carro no trânsito ele dizia “acontece com todo mundo” e consolava o autor da cagada.
.Nas duas vezes em que foi despedido disse “eu entendo” e deu um presente de despedida pro ex-chefe.
.Quando dois moleques o roubaram, levando tênis, carteira e celular, ele disse que precisavam daquilo mais que ele.

A lista crescia à medida que Jourrúbio vivia sua vida pacata.

Só havia uma coisa, na verdade, que o perturbava. Farofa de banana. Havia um único dia que podia lembrar em que não comera seu prato preferido, ainda criança. Nesse dia chutara Mortín, seu cachorro, xingara a mãe, quebrara a porta do armário e a janela do vizinho e brigara com três outros meninos na escola. Ganhara a luta sem um arranhão. À noite, depois que comeu farofa, sossegou.

Certo dia Jourrúbio foi levar um amigo no aeroporto de Várzea-Grande. Na volta parou num semáforo fechado, um pecado mortal na madrugada cuiabana, e foi abordado por dois homens armados. Roubaram tudo o que tinha e o prenderam no porta-malas. Largaram-no num buraco tomado por mato no Despraiado e ninguém reparou no carro, que ficou lá sob o sol carinhoso de 48 graus.

Depois de um dia inteiro sem comer, com a garganta seca, suado e cheio de cãibras nas pernas e nos braços, Jourrúbio lembrou da farofa de banana. Com um único chute destruiu a tampa do porta-malas, que voou dez metros no ar. Entrou no carro e farejou o banco até fixar bem o cheiro dos assaltantes.

Ignorando as dores começou a correr, alargando as narinas e seguindo o rastro, que acabava numa casa no Santa Isabel. Quebrou a porta e bateu nos sujeitos até sentir que levariam pelo menos um mês pra saírem do hospital. Recuperou a maior parte do que fora roubado e voltou pra casa correndo, deixando a Corrida de Reis no chinelo. Quebrou a parede porque não teve saco de entrar pela porta, abriu o forno e puxou a panela com farofa de banana que a mulher fizera no dia anterior. Encheu a boca seca de comida e enfiou um litro de água atrás. Comeu até se fartar e dormiu ali mesmo, no chão da cozinha.

Jourrúbio mal sabia, e nunca se convenceria disso, mas naquele dia nascia o primeiro super-herói cuiabano.


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-Jourrúbio e o congestionamento
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