Jourrúbio e o jogo do Mixto [#40]

Jourrúbio era um grande torcedor do Mixto.

Assistia futebol na TV toda quarta e domingo, como a tradição exigia, mas seu coração pertencia mesmo ao time da capital mato-grossense. O Mixto andava parado nos últimos tempos mas nada como um clássico para reavivar o espírito dos torcedores. Mixto x Operário. Cuiabá x Várzea-Grande. Talvez por VG ser cidade vizinha, colada, logo ali depois da ponte, a rixa fosse tão grande. Proximidade acirrava os ânimos.

Mas Jourrúbio estava preocupado porque a mãe tivera uma infecção intestinal feia. Ela insistia no espetinho de 1 real do Morro da Luz. Levaram-na pro hospital às pressas na noite de quarta-feira, gemendo de dor, e lá ficou, Jourrúbio ao seu lado tentando inutilmente dormir. Passou o dia seguinte varado trabalhando na farmácia. Pegou o ônibus pra casa, pensando no banho e na segunda noite de hospital. A mãe continuava ruim, só no soro. Espremido no busão, olhava com desesperança o ingresso da partida: “Clássico dos Milhões. Quinta-Feira. 19hs no Dutrinha.” Quando chegou em casa a esposa o esperava. Disse que ficaria com a sogra no hospital, que ele podia ver o jogo que tanto queria. Jourrúbio quase não acreditou na sorte, e temendo que Marileide mudasse de ideia saiu de casa do jeito que estava, direto pro estádio. Não era muito longe, dava para ir a pé. Chegou no apito do juiz.

Encontrou lugar no meio da torcida organizada. Reencontrou velhos amigos e conhecidos. Jourrúbio era um cara tranquilo, bastante amado, tanto que ganhou passe livre pro isopor de 200 litros que era o núcleo daquela célula na arquibancada. A cerveja comeu solta, a gritaria também. Mixto fez um gol, Operário empatou. Segundo tempo, Operário fez outro, Mixto empatou.

Só nos 25 do segundo tempo Jourrúbio se tocou da fome que sentia, amortecida pelo fuzuê da torcida, pelo calor do momento. Lembrou que desde o almoço do dia anterior não tinha comido a querida farofa de banana. Havia mesmo um calafrio percorrendo sua espinha, e não era a emoção do jogo; era a falta daquele alimento tão essencial ao seu organismo. Lembrou do Sesc Arsenal, ali, na quadra de baixo. Quinta-feira, dia de Bulixo, feira de comida típica. Se havia um lugar que vendia farofa de banana por perto seria esse. Mas não podia sair assim, sem mais nem menos, deserdar os companheiros de jogo. Era um ritual, e sair era pecado, coisa séria. Aguardou pacientemente o fim. Nos acréscimos lembrou que o empate levaria à prorrogação. Não podia. Não conseguiria resistir. A fome era tamanha que o ronco do estômago alcançava o ouvido por cima da gritaria.

Último lance, poucos segundos no relógio. Conta-ataque do Mixto, sem impedimento, área livre, tirambaço do atacante. O goleiro pulou, espalmou na ponta dos dedos, a bola correu pra lateral. Do nada, sem explicação, ela atingiu uma parede invisível e voltou no pé do atacante. Um passe fantasma. Outro chute. Gol. Ninguém entendeu. Mas o gol valeu.

A torcida foi à loucura, a arquibancada de cimento quase rachou. Jourrúbio estava de volta antes que dessem por sua falta. Não levou um segundo. Comemorou como um louco por dois minutos, o mínimo para não ficar feio na fita. Então disse que a mãe estava doente, no hospital, precisava correr. Correu foi pro Sesc Arsenal. Direto pra barraquinha do Serjão. Farofa de banana, ele gritou. Repetiu seis vezes. Se jogou na grama. Ficou lá estirado feito um peixe-boi, as crianças brincando ao redor e pulando por cima dele. Serjão trouxe uma Coca quando o movimento deu uma diminuída. Pra digestão, ele disse; Jourrúbio era cliente antigo, merecia a atenção extra. Saiu do estupor e pagou a conta com um sorriso bobo no rosto.

No hospital assistiu A Grande Família de barriga cheia, com a esposa e a mãe desacordada. Era um homem feliz.


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