Jourrúbio e o peixe de Bom Sucesso [#31]

Jourrúbio sonhou a semana inteira com o almoço de domingo.

Como todo bom cuiabano comedor de peixe, ele sabia que o melhor lugar para degustar a iguaria era em algum dos restaurantes na beira do rio em Bom Sucesso, distrito a meia hora de viagem da capital no trânsito ressacado de domingo. Chegou a sonhar com ventrechas de pacu e pintado frito, na mojica e no pirão. A ansiedade foi tão grande que mal comeu no sábado, um cardápio light, uma feijoadinha para acalmar os vermes e uma cervejinha no fim do dia. Sua amada farofa de banana, o alimento que estava intrinsecamente relacionado aos eventos mais estranhos de sua vida, ficou de lado, guardada no forno, porque ele sabia que assim como o peixe a farofa de banana de Bom Sucesso valia a espera.

Domingo chegou e Jourrúbio colocou a esposa Marileide no carro e parou na casa da mãe. Teve um trabalho danado para tirá-la do sofá em pleno Esquenta (ela chegava às lágrimas com o programa), mas conseguiu com a ajuda da irmã desquitada, que faria companhia. Os quatro pegaram a estrada ao som de Raça Negra, a banda favorita de Marileide, e logo chegaram ao restaurante. Escolheram uma mesa na ponta do terraço improvisado, a três metros do rio. O garçom barrigudo anotou as bebidas e depois de 40 minutos veio com a comida, desfilando as delícias fumegantes nas cumbucas de barro.

Quando se virou para ir embora Jourrúbio paralisou-o com um grito. A farofa de banana. ONDE ESTAVA A FAROFA DE BANANA, perguntou. O garçom disse que estava em falta em todos os restaurantes, o carregamento de bananas do final de semana não chegara. Marileide implorou a Jourrúbio que não fizesse escândalo, quando chegasse em casa ele comia, vamos aproveitar o peixe. Jourrúbio ficou tonto, enjoado, não conseguiu colocar comida na boca. A farofa de banana! Como podia comer sem ela? Já não comera no dia anterior, e agora isso? O que fizera de errado para merecer tamanho castigo?

Depois de agonizar por cinco minutos, sorvendo a cerveja em goles profundos para aliviar a tristeza, Jourrúbio perdeu os sentidos. Quando abriu os olhos estava sentado na mesa, todo sujo, cheio de terra e folhas, com um cacho de bananas no colo. Ignorou a esposa, a irmã e a mãe boquiabertas na mesa, assim como o resto do restaurante, e foi à cozinha exigir a farofa. Alguns clientes foram embora, assustados. Outros observaram com curiosidade aquele homem comer até quase explodir.

Na volta Marileide disse o que acontecera: ele deu um pulo e fez um buraco no teto da tenda, atravessando o rio e entrando na mata do outro lado rápido como um raio. Em poucos segundos desabou na cadeira pelo mesmo buraco, com as bananas no colo. Era a primeira vez que a família testemunhava seus poderes, e custaram a acreditar. A mãe de Jourrúbio quase teve um troço e disse que ele devia ir no Caldeirão do Huck. Jourrúbio ignorou a sugestão. Sabia que seria difícil continuar escondendo seus poderes se eles aparecessem assim, sem mais nem menos. Ainda não os relacionara à farofa de banana.

Mas era um cara tranquilo e apreciava as pequenas coisas. Não se preocupou. Estava contente de voltar para casa com a barriga estufada.


*Confira outras aventuras de Jourrúbio, o primeiro super-herói cuiabano:
-Jourrúbio e a farofa de banana
-Jourrúbio e o congestionamento
-Jourrúbio e o jogo do Mixto
-Jourrúbio e o jogo do Brasil